terça-feira, 21 de julho de 2026

R.I.P. Fada do Dente

ou O Dia Que a Fada do Dente Morreu (spoiler: eu a matei)


Desde que me tornei mãe, quase 14 anos atrás, decidi que seria o tipo de mãe que incentiva o lúdico, que estimula a criatividade, que valoriza e embarca junto na imaginação. Mas não bastava só incentivar e estimular. Eu escolhi me esforçar, escolhi ter trabalho, escolhi "performar", como diria a propria Minha Filha.
Daí, assim que ela passou a entender datas, tivemos as super produções do Calendário do Advento (farei um post a respeito. Tá no rascunho há anos, literalmente. E eu sei usar corretamente o "literalmente"), as médias produções de páscoa, as brincadeiras do dia a dia e chegou o dia em que ela perdeu o primeiro dente.
Quando a criança perde o dente, o que os pais fazem? Podem optar pelo "coloca o dente debaixo do travesseiro e a fada vai deixar um dinheiro pra você em troca do seu dentinho" ou simplesmente "Ok! Caiu o dente. Joga no lixo e se prepara que os próximos cairão em breve". Avaliei as opções e achei pouco. Confiei no meu potencial para fazer melhor.
Pois então, confiando no meu potencial, me enfiei em uma aventura que durou uns 2 anos.
No primeiro dente, avisei pra ela que a fada do dente viria deixar um dinheirinho pra ela. No meio da noite eu troquei o dentinho pelo dinheiro e, não satisfeita, escrevi um bilhete pra ela agradecendo pelo dentinho, pedindo para ela cuidar bem dos outros que estavam prestes a cair e "polvilhei" a cama com glitter. Debaixo do travesseiro deixei um tanto a mais de glitter e o tal bilhete, escrito com uma letra cheia de firulas. Letra de fada, na minha cabeça.
Quando ela acordou, aquela alegria, aquela festa! E daí pra frente foi só loucura e megalomania materna. Fui dobrando a aposta, sendo que eu estava apostando comigo mesma, contra mim mesma, nem sei. Eu era a banca, o apostador, os dados, a roleta. Assim, fui ganhando e perdendo ao mesmo, porque eu ganhava a satisfação de ver a magia acontecendo e perdia horas de sono pra esperar Alice dormir e eu poder fazer toda a maracutaia da fada.
No segundo ou terceiro dente, tivemos um problema: o dente foi engolido enquanto ela comida batatinha e deu-se o desespero.
"AfadaDOdenteNÃOvaiMEvisitarPORQUEeuENGOLIoMEUdeeeeeeete!!!!" *choro + choro + choro + choro*
Nada disso. A fada vai visitar minha filha, sim! A magia não vai ser engolida com batatinha, não! Eu não permito!
Entrei no Google Imagens, achei uma ilustração bonitinha de uma fada do dente. Mandei a imagem para a minha cunhada e pedi pra ela mudar a foto do whatsapp dela e me enviar um áudio fazendo voz de fada e falando que ficou sabendo que o dente foi engolido por acidente, mas que ela já tinha resolvido tudo. O dente era valioso demais para ser perdido, então ela pagou um pouco de queijo para os ratos mágicos do esgoto acharem o dente dela, já que ela já tinha ido ao banheiro e o dente foi embora pro esgoto, onde moram os ratinhos mágicos. Problema resolvido. Mais tarde a fada faria uma visita.
No meu celular, mudei o nome do contato da minha cunhada para Fada do Dente e apaguei o histórico da conversa, porque Alice nunca foi boba e ia questionar o que mais eu tinha falado com ela antes daquele áudio.
Alice ficou MUITO feliz com o áudio da Dona Fada do Dente. Melhor do que apenas uma cartinha.
E aí a história foi, foi, foi, foi... Até que Alice fez 7 anos e achei melhor acabar com essa história para evitar que ela contasse na escola sobre as visitas da Fada do Dente e, por isso, virasse motivo de chachota dos colegas que não acreditavam mais (ou talvez nunca tenham acreditado) na Fada do Dente.
Esperei um dente cair e deixei a última cartinha dizendo que agora ela estava um pouco grande, já não tinha muitos dentes para cair e a fada precisava coletar dentes novos, de crianças menores. Foi uma bela despedida e pensei que a história seria encerrada ali.
Mas não. Alice acordou, leu a carta e caiu no choro.
"AfadaDOdenteNÃOvaiMEvisitarMAAAAAIS!!!!" *choro + choro + choro + choro*
Foi nesse  momento que tomei a decisão: matar a fada do dente.
Comecei dizendo que ela já estava grande, que os amigos também estavam grandes, que eu precisava que ela soubesse que a fada do dente era a mamãe. E que foi lindo incentivar e criar tudo aquilo, mas ela não podia seguir acreditando nisso porque eu temia que os colegas fizessem piada sobre isso, caso surgisse o assunto.
"AfadaDOdenteNÃOexiste?!?!?" *choro + choro + choro + choro*
Ela questionou o áudio, os bilhetes, o brilho mágico, o dinheiro... E eu tive que explicar: "Era eu, meu bem. A mamãe fazia tudo. O áudio foi a tia quem mandou porque eu não queria que você ficasse triste por causa do dente que engoliu".
O luto pela morte da Fada durou alguns dias, entre indignação e incredulidade.
No fim, passou e ela seguiu a vida dela perdendo mais alguns poucos dentes.
Se eu tivesse outra criança pequena, faria muita coisa diferente, mas a história da fada do dente, do começo ao fim, sinceramente? Eu faria tudo de novo.
Da criação ao assassinato da fada, não mudaria um grão de glitter nisso tudo.

***
Trilha Sonora: ouvindo entrevistas no Youtube.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

40

Sexta-feira, dia 01/05, foi meu aniversário. 40 anos!
Daqui de onde me vejo (não sei se consigo explicar direito) parece que não tenho "tudo isso". Parece pouca vida vivida. Mas, também daqui de onde me vejo, me lembro quando minha mãe fez 40 anos e ela parecia tão... adulta? Mãe? Experiente? Não sei se era isso. Talvez seja 'madura' a palavra correta.
Nessa época, quando minha mãe fez 40 anos, dei pra ela um livro chamado Quarenta: A Idade da Loba, que eu não faço a menor ideia de como foi que veio parar nas minhas mãos, mas estava lá e achei que pudesse ser interessante para ela, já que (assim como eu agora) ela nunca tinha feito quarenta anos antes. Ela leu, disse que adorou e de tempos em tempos se lembra do livro e comenta a respeito. Ele voltou pra minha estante depois de um tempo.
Semana passada lembrei dele e pensei que talvez seja uma boa leitura agora que posso saber do que falam as mulheres de quarenta anos, apesar de ainda não ter certeza absoluta se eu tenho as credenciais para fazer parte do tal clube das lobas.
O que fazem as mulheres de 40 anos? Trabalham, cuidam de filhos, administram seus relacionamentos amorosos, tentam manter contato com os amigos, aprendem a ser as mães dos seus pais que agora agem como crianças? Porque, se for isso, eu já faço isso tudo há alguns anos. Então estou apta a usar minha carteirinha para entrar no clube. Mas se as mulheres de 40 anos sabem exatamente o que querem da vida ou se já estão exatamente onde planejaram estar aos 40 ou se elas já têm estabilidade financeira e emocional suficiente para fazer todo o resto sem que nenhuma ruga de preocupação ou dúvida surja na testa... Bom... Aí eu tô fora do clubinho.
Refleti muito esses dias e, realmente, estou bem longe de onde sonhei que estaria hoje. Mas também estou muito longe de onde eu estava quando sonhava com os 40 anos. Talvez eu tenha sonhado com a estrada mais ao leste e acabei pegando uma entrada mais ao sul, desviei a rota e encontrei um caminho diferente. Não é o caminho que o meu mapa estava indicando, mas é um bom caminho.
Enfim, feliz novo ciclo pra mim. Feliz nova idade. Feliz.
Estou feliz, bem aqui onde estou.
:)


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Trilha Sonora: Coisas da Vida - Milton Nascimento, tocando na rádio Nova Brasil, porque eu sou uma jovem senhora que ouve rádio, sim. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

É Assim Que Acaba

Roberto levantou naquela quinta-feira e fez tudo exatamente igual vinha fazendo nos últimos anos: desligou o despertador, chamou a esposa, preparou o café para a família enquanto as crianças arrumavam as mochilas e em pouco tempo todos estavam prontos para sair.
Ele foi para o trabalho depois de deixar os filhos na escola. Precisou dar conta das burocracias do escritório, atender clientes e sorrir fingindo simpatia para os colegas com quem precisava conviver. Se esforçou para dar risada de uma piada que não tinha a menor graça e já tinha ouvido o chefe contar e recontar pelo menos umas três vezes nos últimos 5 anos que trabalhava ali.
Olhou para o relógio pontualmente às dezoito horas, já acostumado a olhar para o relógio quando estava na hora de ir embora. Arrumou suas coisas, guardou suas canetas, se despediu dos colegas e foi para casa.
Chegou quase junto com a esposa, que trazia as crianças.
Tomou um banho, brincou com os meninos enquanto a esposa terminava de colocar a mesa para o jantar. Comeram juntos, contaram sobre os seus dias, lavaram a louça.
Colocou os filhos para dormir, conversou com a esposa sobre dinheiro, sobre a saúde do pai dela, debochou da piada sem graça do chefe, trocaram carícias e apagaram as luzes. 
A esposa adormeceu em poucos minutos, como de costume. Roberto, por sua vez, demorou para pegar no sono porque tudo o que conseguia pensar girava em torno de Cristina, o grande amor da sua vida que havia falecido três dias antes e, depois de tantos anos sem contato, tudo o que ele podia fazer para se despedir era reagir com um emoji de choro no post que o viúvo publicou avisando aos amigos sobre o local do velório. Graças ao algoritmo ou por culpa do algoritmo, ele nem sabia mais, o post só apareceu para ele naquela madrugada. Tarde demais para enviar flores ou ir pessoalmente para um novo e último adeus.
Olhou para o relógio, quase meia noite. Precisava dormir. No dia seguinte a rotina o esperava e ele havia prometido levar a esposa para jantar.
- 10 anos de casamento! Precisamos comemorar, Roberto! Haja o que houver, vamos sair para jantar.



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Trilha Sonora: O ventilador de madrugada é o meu ASMR preferido.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Hidratação é importante

De vez em quando a minha cabeça tá tão doida que uns diálogos meio absurdos acontecem de forma tão natural que só depois eu percebo o que eu falei.
Domingo, por exemplo, tinha uma garrafa de água bem gelada no quarto e outra garrafa de água quente, do dia anterior.
Alice foi tomar um remédio e pegou a garrafa quente. Bebeu um gole e reclamou:
- Que água quente!
- Mas você bebeu a água seca, né? Por que não bebeu a água molhada?
Enquanto eu estava falando, fazia total sentido esse pensamento. Logo depois eu percebi que, opa! Tô dando defeito.

sábado, 16 de agosto de 2025

Maratona Particular

Não sei se é a crise dos 40 ou se é o coitado do Mercúrio retrógrado que todo mundo adora culpar por tudo, mas ultimamente estou meio que me comparando com outras pessoas e às vezes me sinto meio bosta, meio deslocada.
Eu deveria ter conquistado muita coisa que não conquistei ainda. Eu deveria ter muitas responsabilidades que a vida ainda não me obrigou a assumir. Eu deveria saber fazer muitas coisas que ainda não sei fazer.
Mas deveria mesmo? Ou eu acho que deveria porque fico me comparando com outras pessoas?
Será que as pessoas com quem me comparo também não olham pra mim e desejam a minha vida? Será que não sonham com uma rotina mais tranquilinha como a minha parece ser quando posto story de hobbies legais e meio bobos?
Não fossem os hobbies meio bobos, aliás, eu ja estaria tomando remédio pra não ter um treco porque esse inferno de rede social nos faz ver e mostrar só o lado leve da vida, enquanto o pesadão, os dramas e perrengues ficam no offline, bem escondidos. Os meus, pelo menos, ficam e o que não falta é drama tentando acabar com a minha saúde mental ultimamente. 
E se eu não quero ver drama de ninguém, que eu não pago internet pra ficar de baixo astral, também não perco tempo expondo publicamente os meus problemas (pra 30... 40 pessoas, mas ainda assim).
Eu gostaria de estar trabalhando com algo mais interessante? Com certeza. Gostaria de estar morando numa casinha bem decorada e confortável? Claro. Mas não estou, não dá, nada disso é possível agora.
Meu desafio tem sido me convencer de que está tudo bem nada disso ter sido possível ainda. 
Tento me convencer lembrando sempre que cada um tá correndo sua própria maratona, com seus próprios obstáculos e seu próprio trajeto. Tem gente correndo com a ajuda de uma equipe enorme. Tem gente correndo sem apoio, descalço e debaixo do sol. Tem gente que pega atalho e tem gente que pega a via errada e precisa recomeçar.
Eu tô só correndo, sem saber quando a maratona acaba. Às vezes com equipe de apoio, às vezes sozinha. Peguei caminho errado e precisei recomeçar. Teve trecho de chuva e eu tava de guarda-chuva. Teve trecho de asfalto quente e eu tava descalça. Teve trecho que entrei num ônibus e adiantei uns km sem correr, trapaceando.
Por mais que eu acabe reparando na maratona alheia, nessa competição a única adversária que tenho sou eu mesma.
Um dia eu chego lá.


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Acho que era isso que eu queria dizer no post anterior quando me vi perdida entre pratinhos girando e aros de fogo chegando.
Meu cérebro anda me levando por caminhos inesperados ultimamente.

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Trilha Sonora: Paciência - Lenine. Bem a calhar, heim!