segunda-feira, 4 de maio de 2026

40

Sexta-feira, dia 01/05, foi meu aniversário. 40 anos!
Daqui de onde me vejo (não sei se consigo explicar direito) parece que não tenho "tudo isso". Parece pouca vida vivida. Mas, também daqui de onde me vejo, me lembro quando minha mãe fez 40 anos e ela parecia tão... adulta? Mãe? Experiente? Não sei se era isso. Talvez seja 'madura' a palavra correta.
Nessa época, quando minha mãe fez 40 anos, dei pra ela um livro chamado Quarenta: A Idade da Loba, que eu não faço a menor ideia de como foi que veio parar nas minhas mãos, mas estava lá e achei que pudesse ser interessante para ela, já que (assim como eu agora) ela nunca tinha feito quarenta anos antes. Ela leu, disse que adorou e de tempos em tempos se lembra do livro e comenta a respeito. Ele voltou pra minha estante depois de um tempo.
Semana passada lembrei dele e pensei que talvez seja uma boa leitura agora que posso saber do que falam as mulheres de quarenta anos, apesar de ainda não ter certeza absoluta se eu tenho as credenciais para fazer parte do tal clube das lobas.
O que fazem as mulheres de 40 anos? Trabalham, cuidam de filhos, administram seus relacionamentos amorosos, tentam manter contato com os amigos, aprendem a ser as mães dos seus pais que agora agem como crianças? Porque, se for isso, eu já faço isso tudo há alguns anos. Então estou apta a usar minha carteirinha para entrar no clube. Mas se as mulheres de 40 anos sabem exatamente o que querem da vida ou se já estão exatamente onde planejaram estar aos 40 ou se elas já têm estabilidade financeira e emocional suficiente para fazer todo o resto sem que nenhuma ruga de preocupação ou dúvida surja na testa... Bom... Aí eu tô fora do clubinho.
Refleti muito esses dias e, realmente, estou bem longe de onde sonhei que estaria hoje. Mas também estou muito longe de onde eu estava quando sonhava com os 40 anos. Talvez eu tenha sonhado com a estrada mais ao leste e acabei pegando uma entrada mais ao sul, desviei a rota e encontrei um caminho diferente. Não é o caminho que o meu mapa estava indicando, mas é um bom caminho.
Enfim, feliz novo ciclo pra mim. Feliz nova idade. Feliz.
Estou feliz, bem aqui onde estou.
:)


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Trilha Sonora: Coisas da Vida - Milton Nascimento, tocando na rádio Nova Brasil, porque eu sou uma jovem senhora que ouve rádio, sim. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

É Assim Que Acaba

Roberto levantou naquela quinta-feira e fez tudo exatamente igual vinha fazendo nos últimos anos: desligou o despertador, chamou a esposa, preparou o café para a família enquanto as crianças arrumavam as mochilas e em pouco tempo todos estavam prontos para sair.
Ele foi para o trabalho depois de deixar os filhos na escola. Precisou dar conta das burocracias do escritório, atender clientes e sorrir fingindo simpatia para os colegas com quem precisava conviver. Se esforçou para dar risada de uma piada que não tinha a menor graça e já tinha ouvido o chefe contar e recontar pelo menos umas três vezes nos últimos 5 anos que trabalhava ali.
Olhou para o relógio pontualmente às dezoito horas, já acostumado a olhar para o relógio quando estava na hora de ir embora. Arrumou suas coisas, guardou suas canetas, se despediu dos colegas e foi para casa.
Chegou quase junto com a esposa, que trazia as crianças.
Tomou um banho, brincou com os meninos enquanto a esposa terminava de colocar a mesa para o jantar. Comeram juntos, contaram sobre os seus dias, lavaram a louça.
Colocou os filhos para dormir, conversou com a esposa sobre dinheiro, sobre a saúde do pai dela, debochou da piada sem graça do chefe, trocaram carícias e apagaram as luzes. 
A esposa adormeceu em poucos minutos, como de costume. Roberto, por sua vez, demorou para pegar no sono porque tudo o que conseguia pensar girava em torno de Cristina, o grande amor da sua vida que havia falecido três dias antes e, depois de tantos anos sem contato, tudo o que ele podia fazer para se despedir era reagir com um emoji de choro no post que o viúvo publicou avisando aos amigos sobre o local do velório. Graças ao algoritmo ou por culpa do algoritmo, ele nem sabia mais, o post só apareceu para ele naquela madrugada. Tarde demais para enviar flores ou ir pessoalmente para um novo e último adeus.
Olhou para o relógio, quase meia noite. Precisava dormir. No dia seguinte a rotina o esperava e ele havia prometido levar a esposa para jantar.
- 10 anos de casamento! Precisamos comemorar, Roberto! Haja o que houver, vamos sair para jantar.



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Trilha Sonora: O ventilador de madrugada é o meu ASMR preferido.