sábado, 25 de julho de 2026

Sobre o post anterior e a velha internet

Tem um desenho que gosto muito (e assisto desde que eu estava no ensino médio), Futurama, que se passa no ano 3000, na Nova Nova York.
A Nova Nova York foi construída em cima da velha Nova York, que virou uma espécie de esgoto ou depósito de tudo o que o futuro despreza e não tem mais utilidade.
Enquanto escrevia o outro post, me dei conta que é como a internet: existia uma comunidade aqui, uma "civilização", uma coisa viva e em crescimento.
De repente, não sei bem quando e nem como, construíram uma nova internet em cima dessa velha internet e todo mundo foi pra lá.
Ninguém destruiu a velha internet, nem nos expulsou daqui ou nos forçou a ir para a nova internet. As pessoas só escolheram ir embora para a nova internet e deixaram suas coisas aqui "embaixo". De vez em quando alguém volta, tira a poeira, fala com o vento, brinca de gritar pra ver se o eco responde e depois vai embora, de volta para a nova internet. Porque todo mundo está lá. E o "lá" é bem aqui, logo acima.
Talvez por isso eu tenha a sensação de que estou sozinha aqui, enquanto todo mundo também está aqui, mesmo que eu não veja ninguém.
É só uma questão de superfície e subterrâneo. Ou de porão e terraço.


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Trilha Sonora: The Smashing Pumpkins - Tonight, Tonight. Curiosamente o clipe combina com o que acabei de escrever sobre mundo subterrâneo, mundo novo e tal.

Quase 20

De todas as vezes que larguei esse blog abandonado e tentei voltar, essa tem sido a tentativa de maior sucesso, ainda que eu escreva bem menos do que eu gostaria e muito menos do que eu costumava escrever.
Em tempos de "sucesso" desse blog (que nunca foi famoso, mas tinha bastante leitor assíduo e interação nos comentários), teve dia que eu postava 3... 4 vezes por dia. Acho que teve semana que postei todos os dias.
Eu gostava muito de escrever e, principalmente, tinha muito para falar. Muitas opiniões, muitos achismos, muitas certezas, muitos pensamentos escorregando pelos meus dedos.
A internet parecia maior, mais cheia de gente, mais cheia de lugares para ir. E a internet, propriamente dita, funcionava muito precariamente, com baixa velocidade em computadores extremamente lentos. Especialmente no meu caso, que nunca tive computadores potentes para jogos e a conexão em casa era sempre a mais em conta, suficiente para baixar música, fazer pesquisas e usar o MSN. No meio disso, tinha o blog.
Depois, conforme a internet deixou de ser um lugar de lazer e passou a engolir tudo, virou esse monstro que existe agora, que todo mundo é obrigado a estar na internet todos os dias, querendo ou não (precisa dela pra trabalhar, pra usar banco, para falar com a família, para mandar um recado, para matar saudade, ouvir música, assistir TV, saber previsão do tempo, ver receita de bolo, estudar, tirar dúvida, conhecer gente nova.... Credo!), eu também me vi sendo levada para caminhos novos na minha própria vida, responsabilidades e preocupações que não tenho mais tempo de descarregar aqui, problemas que em algum momento passei a achar que são pessoais demais para expor tanto.
Se antes era aqui que eu me acalmava, colocava a cabeça no lugar, agora é longe da internet que faço isso. Descobri hobbies novos e tenho investido cada vez mais tempo e dinheiro nesses hobbies justamente para ficar menos tempo na internet, que, vejam só, era o meu hobby preferido.
Não sei... Talvez antes a internet fosse como um clubinho secreto que, embora tivesse muito mais gente passeando e se falando, tinha muito menos gente conhecida em contato. O offline e o online pareciam nunca se cruzar.
Agora, com absolutamente todo mundo na internet, parece que a qualquer momento alguém pode achar meu blog e compartilhar um print no TikTok ou Instagram, marcando minha @ e acabando com a minha privacidade. Mas se for pensar racionalmente, isso nem faz sentido, já que as pessoas nem acessam mais sites e blogs pessoais. Tudo é app e rede social da moda.
É estranho. Ao mesmo tempo que tá todo mundo aqui na internet, parece que não tem mais ninguém aqui na internet. É uma coisa "Quanta gente!!! Cadê todo mundo?" e isso me deixa desconfortável.

Enfim, tudo o que eu queria dizer é que ano que vem, 2027, esse blog fará 20 anos. E 20 anos é tempo demais!
Muita mudança, muita coisa nova, muitos sentimentos, muitas memórias. Tudo (ou quase tudo) registrado aqui, nesse meu puxadinho esquecido na velha internet.

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Trilha Sonora: The Jesus And Mary Chain - Sometimes Always

terça-feira, 21 de julho de 2026

R.I.P. Fada do Dente

ou O Dia Que a Fada do Dente Morreu (spoiler: eu a matei)


Desde que me tornei mãe, quase 14 anos atrás, decidi que seria o tipo de mãe que incentiva o lúdico, que estimula a criatividade, que valoriza e embarca junto na imaginação. Mas não bastava só incentivar e estimular. Eu escolhi me esforçar, escolhi ter trabalho, escolhi "performar", como diria a propria Minha Filha.
Daí, assim que ela passou a entender datas, tivemos as super produções do Calendário do Advento (farei um post a respeito. Tá no rascunho há anos, literalmente. E eu sei usar corretamente o "literalmente"), as médias produções de páscoa, as brincadeiras do dia a dia e chegou o dia em que ela perdeu o primeiro dente.
Quando a criança perde o dente, o que os pais fazem? Podem optar pelo "coloca o dente debaixo do travesseiro e a fada vai deixar um dinheiro pra você em troca do seu dentinho" ou simplesmente "Ok! Caiu o dente. Joga no lixo e se prepara que os próximos cairão em breve". Avaliei as opções e achei pouco. Confiei no meu potencial para fazer melhor.
Pois então, confiando no meu potencial, me enfiei em uma aventura que durou uns 2 anos.
No primeiro dente, avisei pra ela que a fada do dente viria deixar um dinheirinho pra ela. No meio da noite eu troquei o dentinho pelo dinheiro e, não satisfeita, escrevi um bilhete pra ela agradecendo pelo dentinho, pedindo para ela cuidar bem dos outros que estavam prestes a cair e "polvilhei" a cama com glitter. Debaixo do travesseiro deixei um tanto a mais de glitter e o tal bilhete, escrito com uma letra cheia de firulas. Letra de fada, na minha cabeça.
Quando ela acordou, aquela alegria, aquela festa! E daí pra frente foi só loucura e megalomania materna. Fui dobrando a aposta, sendo que eu estava apostando comigo mesma, contra mim mesma, nem sei. Eu era a banca, o apostador, os dados, a roleta. Assim, fui ganhando e perdendo ao mesmo, porque eu ganhava a satisfação de ver a magia acontecendo e perdia horas de sono pra esperar Alice dormir e eu poder fazer toda a maracutaia da fada.
No segundo ou terceiro dente, tivemos um problema: o dente foi engolido enquanto ela comida batatinha e deu-se o desespero.
"AfadaDOdenteNÃOvaiMEvisitarPORQUEeuENGOLIoMEUdeeeeeeete!!!!" *choro + choro + choro + choro*
Nada disso. A fada vai visitar minha filha, sim! A magia não vai ser engolida com batatinha, não! Eu não permito!
Entrei no Google Imagens, achei uma ilustração bonitinha de uma fada do dente. Mandei a imagem para a minha cunhada e pedi pra ela mudar a foto do whatsapp dela e me enviar um áudio fazendo voz de fada e falando que ficou sabendo que o dente foi engolido por acidente, mas que ela já tinha resolvido tudo. O dente era valioso demais para ser perdido, então ela pagou um pouco de queijo para os ratos mágicos do esgoto acharem o dente dela, já que ela já tinha ido ao banheiro e o dente foi embora pro esgoto, onde moram os ratinhos mágicos. Problema resolvido. Mais tarde a fada faria uma visita.
No meu celular, mudei o nome do contato da minha cunhada para Fada do Dente e apaguei o histórico da conversa, porque Alice nunca foi boba e ia questionar o que mais eu tinha falado com ela antes daquele áudio.
Alice ficou MUITO feliz com o áudio da Dona Fada do Dente. Melhor do que apenas uma cartinha.
E aí a história foi, foi, foi, foi... Até que Alice fez 7 anos e achei melhor acabar com essa história para evitar que ela contasse na escola sobre as visitas da Fada do Dente e, por isso, virasse motivo de chachota dos colegas que não acreditavam mais (ou talvez nunca tenham acreditado) na Fada do Dente.
Esperei um dente cair e deixei a última cartinha dizendo que agora ela estava um pouco grande, já não tinha muitos dentes para cair e a fada precisava coletar dentes novos, de crianças menores. Foi uma bela despedida e pensei que a história seria encerrada ali.
Mas não. Alice acordou, leu a carta e caiu no choro.
"AfadaDOdenteNÃOvaiMEvisitarMAAAAAIS!!!!" *choro + choro + choro + choro*
Foi nesse  momento que tomei a decisão: matar a fada do dente.
Comecei dizendo que ela já estava grande, que os amigos também estavam grandes, que eu precisava que ela soubesse que a fada do dente era a mamãe. E que foi lindo incentivar e criar tudo aquilo, mas ela não podia seguir acreditando nisso porque eu temia que os colegas fizessem piada sobre isso, caso surgisse o assunto.
"AfadaDOdenteNÃOexiste?!?!?" *choro + choro + choro + choro*
Ela questionou o áudio, os bilhetes, o brilho mágico, o dinheiro... E eu tive que explicar: "Era eu, meu bem. A mamãe fazia tudo. O áudio foi a tia quem mandou porque eu não queria que você ficasse triste por causa do dente que engoliu".
O luto pela morte da Fada durou alguns dias, entre indignação e incredulidade.
No fim, passou e ela seguiu a vida dela perdendo mais alguns poucos dentes.
Se eu tivesse outra criança pequena, faria muita coisa diferente, mas a história da fada do dente, do começo ao fim, sinceramente? Eu faria tudo de novo.
Da criação ao assassinato da fada, não mudaria um grão de glitter nisso tudo.

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Trilha Sonora: ouvindo entrevistas no Youtube.