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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

É Assim Que Acaba

Roberto levantou naquela quinta-feira e fez tudo exatamente igual vinha fazendo nos últimos anos: desligou o despertador, chamou a esposa, preparou o café para a família enquanto as crianças arrumavam as mochilas e em pouco tempo todos estavam prontos para sair.
Ele foi para o trabalho depois de deixar os filhos na escola. Precisou dar conta das burocracias do escritório, atender clientes e sorrir fingindo simpatia para os colegas com quem precisava conviver. Se esforçou para dar risada de uma piada que não tinha a menor graça e já tinha ouvido o chefe contar e recontar pelo menos umas três vezes nos últimos 5 anos que trabalhava ali.
Olhou para o relógio pontualmente às dezoito horas, já acostumado a olhar para o relógio quando estava na hora de ir embora. Arrumou suas coisas, guardou suas canetas, se despediu dos colegas e foi para casa.
Chegou quase junto com a esposa, que trazia as crianças.
Tomou um banho, brincou com os meninos enquanto a esposa terminava de colocar a mesa para o jantar. Comeram juntos, contaram sobre os seus dias, lavaram a louça.
Colocou os filhos para dormir, conversou com a esposa sobre dinheiro, sobre a saúde do pai dela, debochou da piada sem graça do chefe, trocaram carícias e apagaram as luzes. 
A esposa adormeceu em poucos minutos, como de costume. Roberto, por sua vez, demorou para pegar no sono porque tudo o que conseguia pensar girava em torno de Cristina, o grande amor da sua vida que havia falecido três dias antes e, depois de tantos anos sem contato, tudo o que ele podia fazer para se despedir era reagir com um emoji de choro no post que o viúvo publicou avisando aos amigos sobre o local do velório. Graças ao algoritmo ou por culpa do algoritmo, ele nem sabia mais, o post só apareceu para ele naquela madrugada. Tarde demais para enviar flores ou ir pessoalmente para um novo e último adeus.
Olhou para o relógio, quase meia noite. Precisava dormir. No dia seguinte a rotina o esperava e ele havia prometido levar a esposa para jantar.
- 10 anos de casamento! Precisamos comemorar, Roberto! Haja o que houver, vamos sair para jantar.



***
Trilha Sonora: O ventilador de madrugada é o meu ASMR preferido.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Amor Preferencial

Acostumado a andar sozinho desde que ficou viúvo, vinte e tantos anos atrás, Seu Oswaldo não esperava nunca mais encontrar outra companheira para a vida toda. Ou para o que ainda lhe restava da vida.
Mas ao embarcar no ônibus de costume, a caminho do centro da cidade, para onde ia com frequência resolver as coisas da aposentadoria, jogar dominó com os amigos do clube da terceira idade ou comprar um remédio para uma doença qualquer que ele gostava de achar que tinha para se ocupar com alguma preocupação que ele já não precisava ter naquela fase da vida sempre saudável (os médicos diziam, ele duvidava), Seu Oswaldo avistou, no banco preferencial, a senhorinha mais linda que ele já havia visto nos últimos anos, desde a partida de Dona Esmeralda. Foi amor à primeira vista, apesar da vista já um pouco fraca pela avançada idade. Limpou bem os óculos, tornou a colocar as lentes no rosto e, estufando o peito, pediu licença e sentou-se ao lado dela.
Puxou uma conversa como quem não quer nada, mas sentia-se um adolescente por dentro, frio na barriga e tudo. Ela sorria. Ela sorria com os olhos quando falava! E ele sorria de volta.
A viagem de 40 minutos parece ter passado em 5, tanta coisa ele queria saber, queria conversar...
Deveria descer no próximo ponto, mas decidiu aproveitar que não pagava mais passagem e fez-se de bobo, perdeu o ponto de propósito, torcendo para que ela não desembarcasse no próximo, antes que ele pudesse pelo menos saber o seu nome, como encontrá-la de novo.
Foram até o ponto final de ônibus e o motorista, acostumado a ver sempre Seu Oswaldo naquela linha, mas nunca até aquele destino, interrompeu os dois:
- Ô, vovô! Esqueceu de descer hoje ou veio passear pra essas bandas?
Seu Oswaldo, entre constrangido e humilhado, disse que precisava resolver qualquer coisa ali por perto, não tinha errado o ponto, não e aproveitou a oportunidade para perguntar se a sua nova amiga morava por ali.
A senhorinha respondeu que havia ido visitar uma amiga.
Alceu, o motorista muito esperto e acostumado a ver romances começando em seu ônibus, tratou de adiantar o lado dos dois:
- Então, até amanhã Seu Oswaldo. Amanhã é dia do Sr. ir jogar dominó no clube da terceira idade, né? Já decorei sua agenda. Lá pelas 14:30 eu passo no ponto perto da sua casa. E a senhora, dona Laura, sai tão pouco de casa ultimamente. Ainda mora ali perto da catedral? Já conhece o clube da terceira idade aqui da cidade? Conta pra ela, vovô. Convida ela pra ir lá. Até amanhã, então!

Seu Oswaldo e Dona Laura seguiram em rumos opostos naquela tarde. Mas no dia seguinte, às 14:00, ela já estava dentro do ônibus, aguardando no banco preferencial, ansiosa pelo momento que veria novamente o adorável Seu Oswaldo, por quem ela havia perdido a consulta médica marcada há meses, mas que poderia ser remarcada depois. Ela sentia que teria ainda todo o tempo do mundo para isso. Urgente agora era rever o seu Seu Oswaldo.


***
A ideia e o título desse continho estavam na minha cabeça há muitos anos, sem que eu tivesse sentado para desenvolver direito a história. Até que lembrei dessa notícia aqui e aproveitei o momento de ócio e silêncio raros para resolver esse assunto.

Fonte: Razões Para Acreditar ( ♥ amo esse site ♥ )


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Trilha Sonora: Estava ouvindo essa playlist delicinha aqui, feita pela Raquel do Draminha.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Um dia minha mãe enlouqueceu.
Não. Não foi assim, um dia. Hoje eu sei que tudo foi acontecendo aos poucos, até que ela…
Começou quando eu era pequena demais para perceber qualquer coisa. Achava divertido minha mãe estar sempre em casa, disponível para brincar comigo e ficar na cama até tarde quando eu não tinha escola. Depois, conforme fui crescendo, passei a achar constrangedor receber amigos em casa e minha mãe estar sempre de camisola e despenteada pela casa. Eu evitava receber amigos em casa. Atendia todos no portão e de lá a gente seguia pra qualquer canto que não fosse a minha casa.
Minha mãe parou de pentear os cabelos e foi adquirindo aos poucos um ar de selvagem, como se estivesse sempre fugindo de alguma coisa que não lhe dava tempo de parar e pentear os cabelos. Quando ela estava medicada, ela prendia os cabelos no alto da cabeça, num rabo de cavalo desajeitado e volumoso que, nas primeiras vezes eu achei graça por ficar parecida com uma couve flor ou um brócolis. Depois aquilo perdeu a graça e ela só se parecia com uma louca mesmo.
De vez em quando ela chorava enquanto prendia o cabelo e, conforme o tempo passou, percebi que era um choro de dor. Amarrar aquele emaranhado de fios era tão dolorido quanto apertar dentro da cabeça dela aquele emaranhado de pensamentos, de lembranças e passado. Ela só tinha passado. Não tinha mais futuro nenhum há muito tempo e, conforme eu desenhava o meu futuro longe dela, aceitando que ela acabaria mesmo cada vez mais louca, sob os cuidados dos meus avós ou de alguma clínica, eu sentia a gente se afastando cada vez mais.
Quando fiz 19 anos, saí da casa dos meus avós. Passei a visitar a cada 15 ou 20 dias e mandava o dinheiro que podia para ajudar com os médicos e remédios que já não ajudavam em nada aquela cabeça tão doente e despenteada.
Eu sentia dó. Eu sentia raiva. Eu queria entender o que aconteceu.
Hoje, 5 anos depois que ela se foi, acordei e senti vontade de não pentear os cabelos. Semana passada descobri que estou esperando um bebê e antes de comprar o primeiro sapatinho, decidi cortar meus cabelos tão curtos que eu nunca mais precise pentear.
Acho que foi assim que começou com ela, mas talvez eu tenha encontrado um jeito de nunca precisar prender os cabelos e não sentir a dor que ela sentia.
Em vez de oferecer um pente, devia ter oferecido a tesoura.


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Conto publicado há alguns dias no Medium. Tive a ideia do primeiro parágrafo e depois, quando sentei pra escrever, o resto foi saindo naturalmente. Não sei ainda se gostei ou não, mas publiquei pra não deixar guardado como tantas coisas que ando escrevendo e não publicando.

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Trilha Sonora: Heart's Out - The Sun Parade. Continuo viciada, apaixonada, encantada e ouvindo muito essa banda. <3

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Resignação

Saiu de casa naquela manhã decidido a sumir. Queria, finalmente, buscar a felicidade perdida há tantos anos. 
Os filhos criados, a esposa falecida há 2 anos, os netos indo para a faculdade, os amigos nem sabia mais por onde andavam.
Nada mais fazia sentido. Sentia há muito tempo que tinha mais passado do que futuro. 
Na infância o que nos motiva são os sonhos para a vida adulta e os empurrões que os pais vão nos dando. Estude, se comporte, faça amigos, vá brincar. Depois, na adolescência, os desejos de liberdade e descobertas. Faça faculdade, arrume emprego, ganhe dinheiro, namore, perca a virgindade, fique noivo, conheça gente nova. Por fim, na vida adulta, as preocupações com a família nos fazem seguir, embora já sintamos o cansaço pela rotina. Trabalhe mais, compre uma casa, tenha filhos, pague um bom colégio para as crianças, troque o carro, conserte o portão que está rangendo, espere o filho chegar da festa, mantenha-se fiel e casado.
Já havia cumprido todas as etapas e, felizmente, com sucesso. Sabia que a esposa havia partido satisfeita com o marido e pai que ele sempre foi. Deu aos filhos a infância segura e a base para uma vida adulta feliz. Aposentou-se como um funcionário respeitado dentro da empresa, mesmo nunca tendo feito algo que realmente o orgulhasse naquele emprego burocrático e mecanicamente repetitivo. Mas nunca, em momento algum, reclamou de acordar às 6:00 am, mesmo no inverno, mesmo no verão, mesmo doente, mesmo infeliz. Se precisava fazer, que fosse feito. Era assim que se forçava a sair da cama todos os dias e era com a certeza de dever cumprido que ia dormir todas as noites, após ajudar os filhos com o dever de casa, lavar a louça do jantar e recolher o cachorro.
Tinha tudo planejado na cabeça há meses. Sairia para caminhar como todos os dias, logo após o café da manhã e, certificando-se de ter deixado o lixo na rua e as contas pagas, levaria apenas carteira e documentos e sumiria no mundo. Sem se despedir, sem explicar nada, sem pedir permissão aos filhos. Simplesmente deixaria de existir naquela vida para tentar existir em outra vida, uma nova vida com o pouco de vida que sabia que ainda tinha pela frente.
Caminhou alguns quarteirões, pensou em ir pela última vez à missa do bairro, mas que sentido havia nisso? Começar uma vida nova com um velho hábito? Não. Entrou na rua antes da igreja e seguiu mais alguns metros até perceber que o tempo estava fechando e ele não tinha um guarda-chuva. Dane-se, pensou, me molho e começo a nova vida assim, de forma inconsequente e imprevisível. Mas, com a idade já avançando, não seria muito inteligente arriscar-se na chuva e dar chances a uma pneumonia. A intenção era viver mais o pouco tempo restante, não encurtar mais o tempo que lhe restava da vida. Deu meia volta e pôs-se a pensar onde estaria o guarda-chuva ou a capa de chuva.
No caminho para casa foi pensando no grande absurdo que estava prestes a fazer. Considerou mais uma vez a possibilidade de arriscar-se na chuva que talvez nem chegasse a cair e, antes que pudesse concluir seu raciocínio, sentiu o primeiro pingo gelado molhar seu nariz.
Colocou a mão na barriga, como se pudesse agarrar ou conter o buraco que só fazia crescer dentro dele, respirou fundo com o peso de quem tenta dar o último suspiro debaixo de toneladas de escombros e, finalmente, assumiu-se um covarde.


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A foto que ilustra o post e me inspirou a escrever esse conto meio mal contado, é da Gabriela Romeiro (@quandocoisa), que fotografa e escreve lindamente.


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Trilha Sonora: Estou há dias tentando concluir esse conto (faltou tempo, faltou internet, faltou humor), então rolou muita música nos meus fones durante o processo todo. A última coisa que ouvi foi Hole ( ♥ ) - Malibu.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Paralelos

Acordou com a música que vinha do rádio relógio ao lado da cama. Quem ainda usa rádio relógio hoje em dia? Era a pergunta que sempre fazia quando ele despertava de manhã e ela não queria acordar, mas não podia dormir mais cinco minutinhos porque não sabia direito como usar a função snooze do bendito rádio relógio. Sabia consertar eletrodomésticos da mãe e orgulhava-se de trocar as próprias lâmpadas queimadas, mas não sabia usar um botão de um rádio relógio tão velho.
Levantou sem abrir direito os olhos, sentou na cama esticando o braço para alcançar o botão, mas interrompeu o movimento quando percebeu qual era a música que estava tocando.
Lembrou-se que era domingo e não entendeu o que o despertador estava fazendo tocando uma hora daquelas, em pleno domingo. Domingo era sagrado. O dia do sagrado sono até meio dia. Acordar com fome e almoçar o resto da janta. Uma fatia de pizza gelada, um resto de yakissoba frio, um pedaço de lanche trazido da rua na noite anterior. A regra era não se esforçar, não sair de casa, não atender ninguém e não fazer nada antes da uma da tarde. Funcionava assim há anos, não fazia o menor sentido aquele despertador tocando agora. Pelo menos a música era boa. Apesar de fazê-la lembrar de um passado há tanto esquecido e enterrado, pelo menos a música era boa.
- 7:00am. Que loucura foi essa de programar esse despertador pra uma hora dessas? Só terminar essa música e volto a dormir. Deve estar com defeito. Vou terminar de ouvir e desligar da tomada. - disse baixo, enquanto voltava a se deitar, jogando os braços por baixo do travesseiro e esticando as pernas para ocupar a cama toda.
- Você vai voltar a dormir? Não prometeu que hoje começava a caminhar?
Por um segundo que pareceu um minuto encarou aquele vulto na sua cama, falando com ela de forma tão natural, como se tivesse sempre estado ali. A voz era conhecida, mas não fazia o menor sentido. "Como ele entrou aqui?" pensou enquanto tentava se lembrar de qualquer objeto pesado o bastante ou pontiagudo que pudesse usar para se defender dele. Mas ele não parecia uma ameaça. Ele nunca tinha sido uma ameaça. Apesar de não terem dado certo juntos e de na última vez terem brigado tão alto que as luzes da casa do outro lado da rua se acenderam no meio da madrugada, ele nunca foi uma ameaça. Ela era uma ameaça pra ele. Já havia arremessado coisas na direção dele em mais de uma ocasião. Ciúmes, desentendimentos por culpa de amigos, mau humor. Acontecia pouco, mas acontecia. E ele sempre, com a maior calma do mundo, desviava dos objetos voadores e ia embora. Voltava ou ligava horas depois para conversar e ela sempre pedia desculpas, jogava a culpa nele, mas pedia desculpas. Não queria machucar, não queria acertar, não queria que ele fosse embora. Até que um dia ele desviou de um mini-dicionário, foi embora e não voltou mais. Não ligou. Não apareceu mais nem para buscar as coisas dele ou devolver as coisas dela.
Ela esperou por 2 dias. Pensou em ligar, mas não ligou. Pensou em mandar um e-mail, mas não mandou. Pensou em ir pessoalmente até o trabalho dele no meio do dia, na quarta-feira seguinte, mas achou que seria inconveniente demais interromper o expediente dele para brigar por ele ter sumido tantos dias. E no trabalho dele ela não poderia gritar ou bater portas. "Se ele foi embora, ele que volte. Ele sempre volta.". Mas ele não voltou.
Durante algum tempo ela ainda pensou que fosse chegar em casa e encontrar com ele na porta, esperando por ela, com uma desculpa qualquer para justificar o sumiço. Mas já havia se passado 3 meses e ninguém nem tinha notícias dele. Só sabiam que ele continuava trabalhando no mesmo lugar, morando na mesma casa. Mas havia sumido dos bares que frequentava e não dava as caras há muito tempo nas casas de amigos em comum.
Ela nunca perguntava diretamente dele, mas vez ou outra conduzia as conversas de forma que alguém tocasse no nome dele, esperando alguma notícia. Mas as pessoas normalmente perguntavam dele pra ela ao invés de dar o paradeiro do fugitivo.
Chegou um dia, quase 1 ano depois, que ela desistiu de esperar. Pensou que ele talvez tivesse arrumado outra, tivesse ido embora do país, tivesse conhecido outro cara e se descoberto gay. Qualquer desculpa fazia sentido para explicar o sumiço.
Ela evitava apenas pensar que ele estava cansado das brigas, do descontrole, da instabilidade emocional que ela vivia e descarregava nele. Evitava pensar que a culpa era dela. Não era. Ele devia um pedido de desculpas. Mas depois de tanto tempo, deixou pra lá. "Que esteja feliz, pelo menos", ela pensava. Mesmo que no fundo ela sempre completasse com um "...e sozinho".
Depois de tantos anos juntos, não conseguia aceitar a idéia de que ele pudesse se interessar por outra, que ele pudesse estar com outra, beijar e ir pra cama com outra. Ela não se via com outro também. Pensava que não conseguiria mais ficar nua na frente de outro cara que não fosse ele. Sentia pavor de pensar em acordar no meio da noite, ainda sem se vestir e deparar-se com alguém na cama que não fosse ele. Não teria coragem de perguntar, rindo como sempre fazia, onde estava a calcinha dela. E sabia que nunca mais ouviria a resposta "pra quê vestir se vamos tirar de novo daqui a pouco? Volta pra cama..." com aquela voz sonolenta e sexy que ele tinha quando acabava de acordar.
Aquela voz... Aquela voz estava ali, no escuro do quarto dela, falando com ela, na cama dela. Aquela voz. "Como ele entrou aqui?" e ainda não entendia o que estava acontecendo.
- Que dia é hoje?
- Hoje é... Do mês eu acho que é 14. Domingo. Por quê? Deixa eu ver no celular. Pega no bolso da minha calça aí no chão.
Ela sempre perguntava o dia quando, nas manhãs de ressaca, queria se livrar de alguma companhia indesejada que acabava passando a noite ao invés de seguir no primeiro táxi às 4 da manhã. Depois de tanto esperar, ela voltou a sair, conheceu outros caras legais, levou alguns para a casa dela, fez o que quis fazer e sempre, inevitavelmente os despachava com uma desculpa qualquer para que eles não dormissem lá ou ficassem mais que o necessário. Não queria aquele incômodo de preparar café da manhã ou o constrangimento de acordar com um café na cama e um pedido de namoro às 8 da manhã. É difícil dizer não antes do meio dia e ela não gostava de parecer grosseira com desconhecidos. Quando acontecia de pesar demais o sono, um tipo de despertador interno a fazia acordar antes deles e ela se vestia correndo, fazendo algum barulho no quarto. Derrubava um desodorante ou chutava um banquinho de forma que qualquer narcoléptico acordasse no susto e emendava na pergunta chave, "que dia é hoje?" para em seguida fingir um compromisso qualquer, alguém chegando de viagem no aeroporto ou na rodoviária e ela precisava se aprontar pra buscar a pessoa, "infelizmente você não vai poder ficar, mas me liga, vamos sair de novo um dia desses...". E nunca mais.
Mas perguntar o dia para ele não foi uma maneira de começar o teatro para livrar-se dele. Foi um medo de aquilo ser um sonho, medo dele de repente responder 31 de fevereiro, se transformar em uma gaivota azul e sair voando pela janela aberta.
- O que você está fazendo aqui?
- Quê?
- Como você chegou aqui? O que você está fazendo aqui?
- Eu? Estou acordando, ué. Eu costumo fazer isso depois que durmo por algumas horas. Você tá bem? Tá dormindo ainda, né? Vem cá, deita aqui...
- Como você entrou aqui? Desde quando está aqui?
- Entrei com você, ontem, depois que fomos ao mercado e estou aqui desde a semana passada, quando estourou aquele cano no meu banheiro e você disse que eu poderia ficar aqui com você. Deita aqui, volta a dormir.
- Cano? Que cano?
Ele riu e enquanto a abraçava, pediu mais uma vez que ela se deitasse para voltar a dormir.
Ela deitou, mas não fazia o menor sentido. Ficou pensando o que ela teria bebido ou usado sem perceber na noite anterior. Só podia estar sonhando, só podia ser uma ressaca depois de 1 semana alucinada. "Como assim? Ele está na minha casa há dias e eu nem me lembro?". Se estava ficando louca, precisava ao menos fingir estar sã para evitar uma internação. Se estava sonhando, precisava se manter no controle daquele sonho. Entrou no jogo dele. Deitou na cama, deu um beijo nele meio desajeitado e percebeu que, com tanto tempo de saudade e distância, já tinha se esquecido como era o arrepio que sentia quando os lábios deles se encontravam.
- Me desculpa?
- Hmm... Por quê?
- Por tudo. Me desculpa?
- Não sei o que é esse tudo, mas se você está arrependida, desculpo, sim. Eu sempre te desculpo.
A música terminou e, antes de puxar a tomada do rádio-relógio, ela só teve tempo de cantar sorrindo o finalzinho "em algum lugar do tempo, nós ainda estamos juntos Pra sempre, pra sempre ficaremos juntos". Se fosse um sonho, que pelo menos terminasse bem. Se fosse uma nova chance, que pelo menos recomeçasse com uma promessa.


***
A idéia desse conto surgiu enquanto eu ouvia essa música. Não consegui escrever de uma vez só porque as idéias sempre me procuram quando preciso ir dormir, então fiz quase todo no sábado de madrugada e deixei pra terminar na terça-feira, quando tenho 2h livre (por incrível que pareça, no trabalho).
Se ficou muito ruim, perdoem-me. Foi minha primeira vez arriscando um texto totalmente de ficção. Mas saiu tão fácil e tão natural, que achei melhor não esconder. =)


***
Trilha Sonora: Em Algum Lugar do Tempo - Biquini Cavadão. Essa música sempre mexeu demais comigo, mas depois desse conto ela ganhou um status diferente na minha playlist "músicas de dor de amor".

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Aguenta Coração

Sonhava em conhecer o mar. Desde a infância, seu sonho era ver de perto o que só via por fotos e televisão.
Um dia, já adulta e mãe de dois meninos, realizaram seu sonho. Sem contarem nada a ela, planejaram a viagem e, chegando na beira do mar, aquela alegria. Uma alegria sem fim, sem fim como o mar.
O coração explodiu de felicidade. Explodiu de verdade.
Enfartou na beira do mar.

***
Baseado em fatos reais.

***
Trilha Sonora: Novela sempre me deixa com músicas na cabeça. Tô com uma que, parece que se chama Ride e é da tal Lana Del Rey, que eu só ouvia falar, mas nem sabia direito quem era. É uma vergonha, mas assumo: não atualizo meus conhecimentos musicais desde... muitos anos.

domingo, 29 de março de 2009

Um conto

Fita Verde no Cabelo (Nova Velha Estória)
Guimarães Rosa

Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.
Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia.
Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo.
Então, ela, mesma, era quem se dizia:
– Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.
A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós.
Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa.
Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
– Quem é?
– Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. – Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.
Vai, a avó, difícil, disse: – Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe.
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
– Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!
– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou.
– Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!
– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou.
– Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?
– É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: – Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

***
Aviso:
Post programado