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sábado, 14 de janeiro de 2012

As lanternas chinesas

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo, 
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como 
uma pobre lanterna que incendiou!

Mario Quintana

***
Quintana sempre me deixa num misto de felicidade com melancolia e esse poema em especial me faz pensar numas coisas que eu nem queria pensar, mas enfim...
Eu nunca sei o que dizer mesmo, então deixa a tal lanterna incendiar e o dia passar.

***
Trilha Sonora: Strokes pra tentar me animar nessa manhã de chuva de um dia que promete ser longo e tedioso.

Arte de Fumar

Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar...
Mario Quintana 

***
Longe de mim fazer qualquer apologia ao cigarro ou coisas que sabidamente façam mal à saúde, mas confesso que quando estou meio assim, cansada de certas coisas, pessoas, atitudes e situações (e só Deus sabe como estou cansada) sinto uma enorme vontade de acender um cigarro e me permitir suspirar disfarçadamente, sem ter que explicar nada, sem deixar transparecer coisa alguma. E nesses momentos, ao invés de fumar, eu penso nesse poeminha (nunca sei como chamar os escritos do Quintana, mas poeminha me parece mais carinhoso e correto por serem quase sempre tão curtinhos) e suspiro pra dentro.
Mas quando eu voltar a ter as escadas de incêndio com vista para o balanço do gramado, quem sabe...

***
Trilha Sonora: Um silêncio aqui dentro.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

#diaD


Consolo na praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.


O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.


Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.


Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?


A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.


Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho



***
Difícil escolher, mas acho que esse é o meu preferido do Drummond.

***
Trilha Sonora: The Only Exception - Paramore. Eu também ouço musiquinha de adolescente de vez em quando, sim, e daí?

#diaD

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.




***
Trilha Sonora: Flores Astrais - Secos e Molhados.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Disse o Quintana

"Havia, não me lembro agora se no País das Maravilhas, da Alice, ou se na Cidade de Oz, uma velha que morava num sapato... E nós que moramos em caixas de sapatos!"
Mário Quintana


Devia ser na Cidade de Oz, Quintana. No País das maravilhas, tenho certeza que não era. Mas, de qualquer forma, adotei a frase como uma homenagem à minha Caixa de Sapato, afinal, é aqui que eu "moro".

***
Trilha Sonora: Sabe quando uma melodia fica martelando na sua cabeça e você [não] faz idéia de onde ela veio? Então. A que está me martelando parece musiquinha de caixinha de música, mas eu não tenho e nunca tive uma caixinha e música.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Velha História

"Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho. Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena.
E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o peixinho sarasse no quente. E desde então ficaram inseparáveis.
Aonde o homem ia, o peixinho acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelos cafés.
Como era tocante vê-los no “17”! – o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara fumegante de moca, com a outro lendo jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava uma laranjada por um canudinho especial...
Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho:
- Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste...
Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho na água. E a água fez um redemoinho, que depois foi serenando, serenando... até que o peixinho morreu afogado."
(Mário Quintana)
***
Tempos que eu queria postar esse continho do Quintana aqui, mas não estava encontrando ele na internet e, apesar de estar com o livro aqui em casa, estava com preguiça de copiar tudo. Enfim, achei. Na primeira vez que eu li, não cheguei a chorar, mas quase.

***
Trilha Sonora: Playing Your Song - Hole. Não combina nem um pouco com o clima desse post, mas, fazer o quê? É o que estou ouvindo agora.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Porque Drummond é sempre Drummond

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu
Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade)

***
Trilha sonora: I Want You - Bob Dylan. E antes várias outras dele (no Greatest Hits).
Momento "Você Sabia?": essa música, I want you, é a original daquela do Skank, Tanto ("É tanto É tanto Se ao menos você soubesse")

sábado, 3 de novembro de 2007

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.
Carlos Drummond de Andrade
***
Trilha sonora: Vilarejo - Marisa Monte
"... Tenha um verdadeiro amor, para quando você for..."