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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Máquina do tempo passado

Acho que a invenção de uma máquina do tempo talvez seja a coisa mais urgente dentre tantas tecnologias que ainda precisam ser inventadas.
Poder voltar para rever com mais calma e a dose necessária de atenção aquele momento em que tudo na sua vida mudou e, na época vivida, você não percebeu que aquele conjunto de segundos seria tão decisivo para o seu destino.
Conseguir olhar de novo e demorar mais nessa nova chance para captar com perfeição o primeiro olhar que você trocou com o seu bebê recém parido, sentir novamente a textura úmida e macia da pele daquela nova vida, as mãos ainda tão pequenas e já cheias de força para esticar os dedos em um choro de tomada de fôlego.
Poder se demorar um pouco mais naquela troca de olhares antes da primeira faísca do que viria a ser o grande amor da sua vida.
Abraçar mais apertado naquela que seria a despedida ainda não sabida.
Naquele dia que você não foi para a escola, justo naquele dia aquele momento memorável aconteceu e você ficou de fora das piadinhas e conversas pelo resto da semana, tudo porque escolheu não levantar cedo. Poder voltar e finalmente entender o quão grande era o tal gambazinho que invadiu a escola.
Aproveitar que não perdeu outra vez aquele dia de aula e, só dessa vez, prestar atenção naquela explicação sobre qualquer coisa que o professor tentava ensinar para 2 ou 3 interessados. Agora você sabe que essa atenção negada ao professor - talvez porque entender as piadas sobre o gambazinho pareciam mais importantes - te fazem falta até hoje na hora de um vestibular ou um concurso público.
Não adiar a visita ao avô no hospital, porque embora você tenha ficado com medo de vê-lo ali, frágil, machucado e imóvel na cama; seria aquela a sua chance derradeira de dizer o quanto o amava e respeitava sua história.
Até nas pequenas coisas, como uma nova chance de ficar em casa lendo um pouco mais ao invés de ir para a rua com tanta frequência. Ou ir para a rua com mais frequência ao invés de ficar trancada em casa pensando besteiras.
Aprender a se amar mais cedo, valorizar o corpo que sempre foi bonito e você demorou anos para rever fotos e se admirar com carinho.
As pequenas coisas que definiram toda a sua vida e você não escolheu conscientemente seguir por esse rumo. Escolheu sempre no automático. Decidiu sempre pelo mais fácil ou pelo caminho já conhecido. Poder voltar atrás e pensar com calma, escolher diferente já sabendo que naquela porta não tinha o prêmio, tinha o gorilão correndo atrás de você, como naquele programa da infância. Gritar "SIIIIM" agora sabendo que trocar a bicicleta pela caixa de fósforos seria mais útil, já você nunca andou de bicicleta e, por muitas vezes, quando esteve no escuro, um único palito de fósforo teria sido a sua salvação.
Poder voltar no tempo e refazer exatamente as mesmas escolhas do passado, porque elas te trouxeram ao ponto que você sempre sonhou. Mas, dessa vez, aproveitar melhor a viagem com a certeza de que, no final, o descanso seria na sua casa já conhecida e confortável.


***
Sabe quando a gente começa fazendo um suco de laranja e acaba com uma jarra de suco de limão? Acabou de acontecer.


***
Trilha Sonora: Gilberto Gil - Super-Homem, a Canção na rádio 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

O Pouco Que Eu Sei Sobre O Que Eu Não Sei

Eu comecei a escrever uma comparação absurda que inicialmente fazia muito sentido na minha cabeça entre amar e subir uma montanha. Desisti no meio do segundo parágrafo porque percebi que não entendo nada de escalar montanhas e talvez não entenda o suficiente sobre amar. Eu me relacionei à sério com 3 pessoas em toda a minha vida que tem apenas 31 anos, dos quais menos de 20 contam com enredos românticos e beijos apaixonados.
O que eu sei do amor? Que ele pode dar certo por um tempo e de uma hora pra outra um dos dois perde o interesse e pula fora? Que ele pode dar certo por um tempo, mas de repente um dos dois percebe que é mais vantagem voltar pra ex namorada e pula fora? Que ele pode dar certo por um tempo até que um dos dois decide que na mesa ao lado tem uma pessoa mais interessante e afetuosa e acha que tá tudo ok não pular fora antes de fazer isso? Isso é basicamente o que eu sei do que me mostraram do amor.
O amor que eu tentei mostrar pra essas pessoas nesses anos é tão maior e mais simples que isso. Tão mais importante do que estar 24h dando sinal de vida pro outro e provando publicamente um amor que só deveria interessar para duas pessoas.
O que eu entendo por amor, mas não sei se está correto, porque não me provaram o mesmo ainda, é que quando a gente ama o outro, a gente respeita mesmo na ausência, a gente luta pra ser uma pessoa melhor porque isso significa também ser melhor pro outro, a gente se esforça para estar mais perto mesmo que isso signifique deixar pra trás toda uma vida e rotina que não cabem na mala.
Eu não fui a melhor das namoradas nesses quase 20 anos de relacionamentos. Eu tenho defeitos horríveis. Eu sou capaz de dizer e fazer coisas horríveis. Mas eu amo. Eu admito meus erros e tento melhorar. Eu respeito quem está ao meu lado, mesmo quando não está ao meu lado. Eu movo montanhas se achar que a montanha está no nosso caminho e minha função é mover aquela montanha naquele momento. E talvez isso não faça de mim a melhor das namoradas, mas sei que faz de mim uma boa namorada.
Só que nada disso me garante alguma sabedoria sobre o amor.
Eu não sei o que é o amor, porque eu só sei o que é sentir amor por alguém.
E eu não sei nem como terminar isso, porque me perdi completamente nos meus pensamentos, não sei mais onde eu queria chegar com isso e, assim como as experiências que tive do amor, tudo fazia muito sentido no começo, mas de repente percebi que me enganei e não sei pra onde estou indo mais.
Talvez isso seja um bom fim. Pelo menos para esse post.


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Trilha Sonora: You - The Pretty Reckless. Ouvindo no repeat porque é maravilhosa demais.

domingo, 16 de abril de 2017

Uma Carta de Ex-Amor

Tem aquela música "achei um 3x4 teu e não quis acreditar que tinha sido há tempo atrás..." e ela não me sai da cabeça há dias, desde que eu achei um 3x4 teu perdido (guardado) nas minhas coisas e parei pra pensar no quanto você e eu mudamos e nos distanciamos do que éramos um pro outro e pra nós mesmos. 
Acontece que o universo é essa coisa engraçada que, sem mais nem menos, começa a te jogar indiretas e sinais na cara a todo momento e, veja bem, universo, não estou mesmo interessada nessa história, isso acabou faz tempo, não tem mais nada a ver "issaê", Seu Universo, me deixa, faz favor? Tô feliz, ele também, temos nossas vidas, seguimos caminhos opostos, pára de cutucar o passado, por gentileza? Mas não tem resposta nenhuma e o universo me fez até sonhar com uma situação surreal só pra me mostrar que, veja bem, os caminhos foram trocados, mas ainda estão de alguma forma entrelaçados pra sempre. Os amigos são os mesmos, os interesses são os mesmos, ainda há em ambos o desejo de encontrar num sebo aquele livro raro que só nós dois conhecemos, o bairro da infância ainda é o mesmo, as memórias de algumas das primeiras descobertas serão pra sempre as mesmas e, até onde se sabe, o carinho é uma coisa que ainda existe. 
Percebi que muito do que somos hoje é resultado do que fomos juntos um dia. Esse teu lado esotérico, meio hippie, meio roots de acampar e ver estrelas e se ligar nas coisas da natureza é quase um reflexo do que eu era e você não se ligava muito, embora me acompanhasse com certa curiosidade quando eu te falava dos seres da natureza e das fases da lua. O meu jeito meio seco de amar e evitar demonstrar que me importo é reflexo do que vivi com você, quando eu expunha todo o meu amor pelas paredes e papéis e depois tive que encarar todas aquelas paredes e papéis dizendo coisas que não existiam mais.
Nunca achei que fosse justo que outras pessoas pagassem pelos erros que você cometeu, mas não posso evitar e essa foi a marca que você deixou na minha vida. De um jeito meio errado, eu sei, mas esse foi o jeito de lembrar pra sempre que você esteve no meu caminho por tanto tempo.
Eu só queria te dizer isso: você foi importante na minha vida. Eu aprendi muito com você e também com o que vivi depois de você, enquanto tentava reorganizar meus passos. Você ainda tem um lugar especial nas minhas memórias e sempre que eu ouvir alguém falar de esquilos ou passar pela cidade de Embu, vou me lembrar daquele casal imaturo e apaixonado que fomos um dia. Nos divertimos muito, te amei muito e gostaria de poder agradecer um dia, pessoalmente, por todas as boas lembranças que você me deixou. 
Estou feliz no caminho que segui, imagino que você esteja feliz no seu caminho e, do fundo do meu coração, onde um dia você mandou e desmandou, desejo "que o verão do seu sorriso nunca acabe".

***
Escrevi esse post há alguns meses e, pra evitar conflitos, deixei no rascunho. Ainda bem que não apaguei. Agora estamos livres.

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Trilha Sonora: A rádio mental tá tocando um medley bem mal feito de Vamos Fazer Um Filme - Legião Urbana com Você Me Encantou Demais - Natiruts.

domingo, 9 de abril de 2017

Eu Sinto Muito

Eu sinto muito. Eu sinto muito o amor e eu sinto muito a dor. Quando eu amo, eu amo com força. Eu me jogo do último andar do amor e caio em queda livre, sentindo o ventinho no rosto, sentindo o corpo pesando rumo ao chão. Inevitavelmente chegarei ao chão. Pode ser que eu chegue ao chão e haja todo um aparato para evitar que eu me quebre toda e pode ser que haja simplesmente o chão. E ali eu me arrebento e também sinto muito a dor. Sinto cada ferida, cada osso quebrado, cada hematoma e, para ter certeza que eu realmente caí, eu aperto e cutuco e arranco casquinhas. Eu gosto de sentir muito. Há um prazer quase masoquista em sentir muito. Porque dói. Mas eu gosto. Eu chego ao meu limite. E chegar ao meu limite é o meu método de esquecer a dor. Ou me acostumar com ela. Como se cada segundo a mais de dor me preparasse para os segundos seguintes, até que eu esteja tão habituada a doer, que não já não importarei ou não sentirei mais nada. Então eu sei que poderei seguir em frente. Não que tenham sumido os sinais da queda. Eles estão lá e alguns serão eternos, mas eu me habituo e não ligo mais pra eles. Passam a fazer parte do meu corpo, como uma tatuagem feita para que eu olhe e me lembre sempre do motivo dela estar ali.
Eu sinto muito. Sempre sentirei muito e isso me deixa mais forte e destemida para as próximas vezes que eu me jogar do último andar do amor. Até que um dia, em uma dessas quedas, sentindo o vento no rosto e o corpo pesado, eu perceba que alguém me deu antes do pulo um pára-quedas pra que eu abra e me sinta segura para, finalmente, ao invés de cair, voar.


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Trilha Sonora: Until We Fall - Audioslave "Bought everything that sounded good I understand that I've been misunderstood"

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Tamo aí! Eu acho.

Começo de ano é aquela coisa linda, aquele misto de esperança em dias melhores com confiança nas pessoas e umas boas doses de auto-estima elevada. É gostoso de ver.
Aí chega o primeiro dia útil e você volta a trabalhar, percebe que os problemas de 2016 não se resolveram magicamente na virada da meia noite do dia 31 de dezembro pro dia 1º de janeiro e quem era escroto continua escroto, quem mentia continua mentindo e os serviços até então feitos nas coxas por outra pessoa continuarão sem solução, embora precisem de solução e, olha que delícia, a urgência por essas soluções encontra-se to-di-nha sentada e rebolando no seu colo, buscando se acomodar da melhor forma possível porque, aceite! Agora é tudo problema seu. No caso meu. É isso aí pessoal. Fevereiro recém começou e eu já estou tendo indícios de estresse no trabalho e, quando eu começo a me estressar eu tenho duas reações: no trabalho eu travo e passo a enrolar o máximo que posso para não ter que admitir que não vou conseguir e em casa eu começo a ficar irritada com pouca coisa. Pra quem tem uma família grande e uma filha pequena, isso é um barril de pólvora e eu sou o fósforo prestes a ser riscado. Ontem briguei com a criança (ela mereceu, não estava agindo com muito respeito), mas passei dos limites e levei a um grau um pouco mais alto uma bronca que poderia ter sido apenas uma bronca de rotina. Nos entendemos antes de dormir, porque sempre acabamos fazendo as pazes antes de dormir. Fizemos um acordo de amigas e agora vamos nos ajudar quando a outra estiver passando dos limites. No fim das contas, apesar das dificuldades e de todo o desgaste que rola na maternidade, eu e a Alice somos uma boa dupla. Nossa parceria funciona muito bem e eu não imagino meus dias sem ela. Ainda bem.
Mas teve também um monte de coisas que eu pretendia fazer ontem e não fiz. Teve uma série de verdades inconvenientes que eu acabei falando sem necessidade naquele momento (não retiro o que disse, mas admito que não precisava ter dito) e teve uma Camila indo dormir tarde, mas antes da hora planejada, já que eu planejava umas horas acordada vendo um filme, relaxando, lendo... Mas simplesmente apaguei logo depois que finalmente consegui fazer a criança dormir.
Aquele momento que você percebe que está, novamente, perdendo o controle de coisas que deveria (ou gostaria de) controlar.
Como sou muito boa de conselhos que não sigo, ontem falei pra Alice que o dia não tinha sido muito divertido, mas que hoje ela poderia tentar de novo ter um dia legal. E é verdade, mas só vale pra ela, porque eu tenho certeza que acabei de entrar naquele túnel super estreito e longo da auto-sabotagem que me leva a lugares indesejados. Preciso ir até o fim do túnel agora e depois que puder sair, eu preciso voltar consertando as coisas todas que acabei quebrando no caminho.
É isso aí, essa sou eu. Essa é minha vida. Tá ruim, vai ficar pior, mas depois melhora.

***
Trilha Sonora: Tava curtindo o silêncio até ouvir o som da criança se espreguiçando aqui. O dia começa agora.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Como Uma Música Salva Uma Pessoa

Em março desse ano, acho, eu fiquei doente. Não foi gripe ou catapora (aliás, nunca tive catapora) e nem precisei fazer cirurgia. Fiquei doente da cabeça mesmo. Ou da alma, como dizem.
Os 3 médicos que me atenderam naquela semana disseram, um sem saber do diagnóstico do outro, que eu estava passando por uma crise nervosa. Até que, numa noite qualquer, eu surtei. Eu travei. Eu fui para o hospital numa ambulância e passei uma semana descansando em casa, sem trabalhar e evitando me estressar. Foi bem sério, mas não é sobre o colapso em si e as causas dele que eu quero falar.
Quero falar que, naquele momento, apesar de um restinho de racionalidade me fazer sentir medo de acordar minha filha e ela me ver daquele jeito; o que me manteve lúcida mesmo foi uma música. Não foi o amor pela minha filha, não foi o desejo de vê-la crescer, não foi a vontade de viver (e tudo isso existe e existia mesmo naquele momento). Foi uma música.
Enquanto eu estava semi consciente, no chão, sem conseguir me mexer, sem conseguir falar, sem conseguir enxergar absolutamente nada, alguma coisa me dizia que, se eu fosse capaz de continuar repetindo mentalmente os versos de Need You By My Side, do The Sun Parade, eu conseguiria me manter sã. Foi como se eu estivesse me equilibrando em uma linha muito fina entre a loucura e a sanidade. E essa linha era essa música. Eu repeti mentalmente muitas e muitas vezes os versos "I fell it collapsing inside me My life while I struggle inside Could you please be my constant? Cause I have fifty thoughts at a time" e de alguma forma que nunca saberei explicar, sei que eles mantiveram parte do meu cérebro funcionando como deveria funcionar.



Poderia ter sido qualquer música de uma lista enorme de músicas que eu gosto e ouço a vida toda, há muitos anos ou há algum tempo... mas foi essa. Postei aqui quando conheci e me apaixonei por essa banda e citei essa música, inclusive. Continuo ouvindo muito, mas naqueles dias, não sei o motivo de ter "escolhido" ela pra me salvar do que eu nem sei. Mas foi ela.
Desde então, tenho prestado atenção aos sinais de qualquer cansaço aparentemente fora do normal, mas quando sinto que estou prestes a surtar de novo, eu ouço essa música, eu canto, eu me lembro dela e eu me mantenho em pé, seguindo meu caminho.
Nunca pensei que uma música se tornaria tão importante pra mim, mesmo sempre tendo sido apaixonada por música, mas essa, naquela ocasião, tenho certeza que me salvou de um destino muito diferente do que eu quero pra mim.

***
Trilha Sonora: Comecei com Need You By My Side e passei por várias outras enquanto escrevia, mas tive que ouvir de novo quando abri o vídeo pra pegar o link. 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Por Onde Andei

Eu não andei em canto nenhum. Tô sempre por aqui admirando os trocentos rascunhos que tenho e fico evitando publicar porque posso causar algum mal estar, porque posso causar algum sentimento reverso ao objetivo de me aliviar a alma, porque posso me arrepender depois e acabar apagando como já fiz em outras ocasiões, porque posso... Enfim.
Estou sofrendo um bloqueio criativo, além disso. Nem as listas mirabolantes que eu costumava fazer, eu tô conseguindo organizar pra postar.
Estou também sofrendo um bloqueio intelectual e ando bastante insegura, achando que toda frase que escrevo contém um erro grosseiro de gramática (isso é um caso a ser estudado seriamente, porque desde que minha filha nasceu eu notei que eu realmente estou com problemas semelhantes a uma dislexia, trocando letras, errando para escrever coisas simples, etc.).
E, como se não fosse o suficiente, tenho sentido que a minha vida simplesmente pausou. Vejo as coisas mudando à minha volta, vejo minha filha crescer, vejo as pessoas evoluindo e fazendo coisas e vivendo histórias e se divertindo e conhecendo gente nova e eu estou sempre no mesmo lugar, na posição no sofá, lendo as mesmas coisas e tendo a sensação de que eu deveria estar fazendo mais, eu deveria estar produzindo mais, eu deveria estar existindo mais. Mas não posso. Não consigo. Não quero.
Dia desses sonhei que eu estava na faculdade, um curso novo, um lugar novo, com pessoas novas. Tava rolando uma festa de recepção, algo assim. E então eu conheci 5 pessoas tão legais que ali nos definimos como amigos pro curso todo. Um entrosamento espetacular, coisa de sonho mesmo. Até selfie em grupo a gente fez, antes de entrarmos todos numa banheira de hidromassagem para 6 pessoas, bebendo cerveja e dando risada. Foi a coisa mais divertida que fiz nos últimos tempos!
Daí, quando acordei, dei um sorriso e em seguida lembrei que, opa! Era sonho! Não tenho vida social nenhuma há muito tempo e, na real, acho que nem tenho mais afinidade com as pessoas que eu chamo de amigas há um bom tempo.
Não sei se a culpa é minha, por ter estacionado nesse ponto da vida e ter me tornado desinteressante para qualquer um ou se é delas, que seguiram em frente e me deixaram aqui, sem notícias e sem retorno dos emails que eu segui mandando por um bom tempo, contando como minha vida estava nos eixos e eu estava feliz. Porque em algum ponto, eu estava realmente feliz e tudo estava caminhando bem. Até que desandou. Até que eu emperrei. Até que foi todo mundo embora e eu fiquei aqui esperando algo mágico acontecer e eu, de repente, estar fazendo selfies e rindo com amigos numa banheira de hidromassagem pra seis pessoas.
Não acredito em mágicas, só pra deixar claro.
E esse monte de chororô foi para explicar a falta de posts.
Resumindo: não tenho nada pra falar além das peripécias da Alice, que são ótimas, mas não quero me tornar repetitiva e nem usar a vida dela como centro de um blog pessoal que, opa! é meu. Portanto: vida pessoal eu não tenho, post novo muito menos.
Pelo menos até que o bloqueio acabe ou eu mande tudo à merda e publique tudo o que eu tenho guardado e tenho receio de postar.



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Trilha Sonora: barulho de ventilador, vassoura esfregando o chão, conversa alheia lá fora, carro passando e a vida acontecendo por aí.

domingo, 2 de agosto de 2015

Amém

É bom olhar para os lados e, pelo menos de vez em quando, agradecer pelas coisas que temos e agradecer ainda mais pelas coisas que não temos. Porque o que é certo e visível, a gente conhece e talvez até lamente, mas o que é incerto e a gente nunca vai conhecer, poderia ser algo muito mais lamentável e quem sabe se poderia suportar?
Então, agradeço, agradeço e agradeço por tudo o que tenho e pelo que não tenho e não sei o poderia ser.
Como diz Hand in My Pocket, da Alanis:

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Trilha Sonora: Deveria ser Alanis, mas é Garbage - Only Happy When It Rains porque tô ouvindo uma seleção aleatória que fiz no Rdio.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Trauma (Não) Dançante

Alice está com 2 anos e alguns meses. Ela adora dançar. Ouve música e começa a balançar o corpinho, meio sem ritmo e ao mesmo tempo cheia de ritmo: o ritmo dela, conforme o corpo pequeno dela permite, conforme a inibição dela deixa, enquanto ela percebe que estamos observando e rindo.
O riso.
Sempre que a vejo dançar ou fazer qualquer outra coisa espontânea e ela se retrai quando nota que está sendo observada, deixo bem claro: "continua, filha! Tá linda!" e sorrio para que ela veja que estou olhando porque gosto e não porque é ridículo (porque, de fato, não é).
Agora, neste exato momento, ela está assistindo a um programa infantil no Discovery Kids e, sempre que ouve um barulho dos instrumentos musicais (é um programa meio musical, tem uma banda, não sei direito), ela começa a dancinha dela, toda animada e desajeitada, exatamente como toda criança faz se não for ensaiada para dançar assim ou assado.
Enquanto a admiro dançando, lembrei de uma cena da minha infância: não sei quantos anos exatamente eu tinha, por volta de 5 ou 6, não mais que isso. Eu estava no aniversário de uma prima minha e, junto de outras meninas da mesma faixa etária, começamos a dançar alguma música da Xuxa que estava tocando. Uma das meninas, acho que minha prima, me falou que eu estava dançando errado, que eu não sabia dançar. Aquilo me deixou constrangida e saí da rodinha. Nunca mais dancei em outras festinhas (só nas festinhas de escola, mas sempre com meses de ensaio e passos decorados com os colegas, sob supervisão da professora).
Passei anos me reprimindo quando ouvia música e queria dançar porque, oras, eu nem sei dançar. Dançar é só ir lá e balançar o corpo como todo mundo faz, como uma criança faz. Mas eu não sei fazer isso. Me disseram que eu não sabia. Então eu não sei e não posso dançar, certo?
Conforme o tempo passou, comecei a beber e isso ajudava na hora de me soltar e dançar. Mas eu sempre tenho a sensação de estar fazendo papel de boba, como se todos fossem bailarinos do Bolshoi Ballet e eu fosse a criança de 4 anos dançando sem o menor ritmo, sem a menor noção do que está fazendo em meio a tantos profissionais e especialistas em movimento corporal.
Acontece que, no fundo, eu sei que não sou assim tão desengonçada. O meu problema não está em braços e pernas descoordenados. Está na minha cabeça, na advertência maldosa que ouvi quando criança e ficou martelando minha memória desde então.
Mais uma vez, como no caso dos traumas sobre o corpo, evito fazer e permitir que façam com a Alice as mesmas coisas que fizeram comigo. Mesmo tendo consciência da origem da minha inibição, não é como um botão de liga e desliga que posso acionar para acabar com a vergonha e sair bailando livre por aí. Leva tempo, envolve álcool sempre que possível, envolve a segurança de estar no meio de uma multidão dançando para que eu não seja o centro das atenções. Mas para a Alice é fácil. É só elogiar e incentivar "Tá linda, meu amor! Você dança muito bem! Continua!" e ela
vai crescer sabendo que pode dançar quando e onde quiser, do jeito que quiser, coordenando ou não os membros do corpo dela, conforme a vontade dela.


Se eu puder vê-la dançando assim, sempre de forma natural, sempre de forma alegre, a Camila de 5 anos de idade estará dançando junto, em algum lugar dentro de mim. Até que, quem sabe um dia, ela resolva sair para dançar com a Alice.


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The Fresh Beat Band é o programa que ela estava vendo.

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Trilha Sonora: Fresh Beat Band, Dora Aventureira... Trilha sonora de mãe.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Como Sua Vida Mudou Em 1 Ano?

Imagem daqui: We ♥ It

Pouco antes do fim do ano, passeando pelo Bloglovin (você ainda não é o meu gReader, mas juro que estou me esforçando e tentando te amar), vi esse post, que perguntava How Has Your Life Changed In a Year? e olhei bem no fundo dos meus olhos (?) e me perguntei: o que você mudou na sua vida em 2014, Camila? Quanto sua vida mudou nos últimos 12 meses?
Daí desviei os meus olhos daquele meu olhar (?) inquisidor e fiquei dias pensando.
Não queria fazer retorspectiva retrospectiva porque não foi mesmo um ano tão legal, cheio de aventuras sensacionais e agitos radicais com uma galerinha do barulho.
Não acho que eu consiga fazer retrospectiva, porque se teve uma coisa que não funcionou bem nos últimos meses, essa coisa foi a minha memória. Até o comecinho de outubro, mais ou menos, eu fiz coisas dignas de uma senhora de 80 anos tomada pelo alzheimer. Sério, dá até um post à parte.
Mas pensando por "setores", vejamos:

Trabalho: quando vim trabalhar aqui, em 2012, foi um choque de realidade complicadíssimo pra mim. Foi opção minha vir pra cá, mas foi um sofrimento enorme até que eu pudesse entender que as consequências seriam cada vez piores se eu permitisse que elas piorassem. No meio de 2013, quando voltei da licença maternidade, depois de 7 meses em casa (6 meses de licença + 1 mês de férias), estava decidida a aceitar as mudanças todas que eu mesma havia procurado. E vi na prática que quando a gente se abre para as mudanças, aceita as consequências e assume os riscos todos, as coisas ficam muito mais fáceis. De verdade.
Parece auto-ajuda barata, mas digo por experiência própria: as pessoas sentem de longe o cheiro do medo e da insegurança e montam com mais violência pra domar o cavalo arisco, que no caso é você (e eu e qualquer um com a postura de atacar antes de ser atacado).
Em consequência dessa minha mudança de postura, tudo mudou naturalmente. Passei a me sentir útil e os elogios vieram junto com a chance de fazer o que eu sei da melhor forma possível pra ajudar o resto da equipe. Então, em 2014, do começo ao fim, pude colher os frutos dessa sábia atitude que tomei. Consegui trabalhar o ano todo com tranquilidade, bom humor, companheirismo, com qualidade e eficiência. Mudou muito e eu mudei mais ainda.

Família: minha família não mudou muita coisa, mas passamos por uns apertos no fim do ano que me fizeram repensar minha postura com relação a todos. Sabe aquela história antiga de só valorizar depois de perder alguém que amamos? Então, quase perdi meu pai, quase perdi meu irmão e, por Deus não chegou a tanto, mas poderia ter perdido toda a minha família num dia só, incluindo minha filha. Tudo o que aconteceu me fez ver que não dá pra esperar pra ser melhor, não dá pra esperar pra perdoar, não dá pra esperar pra ficar mais tempo com eles. Ainda não sou nenhum exemplo de filha ou irmã, não sou nenhum exemplo de amor e gratidão, mas aprendi a agradecer a Deus toda noite (ou quase toda noite, quando eu consigo dormir sabendo que estou indo dormir e não desmaiando até a manhã seguinte). Agradeço pela minha vida, pela minha saúde e pela vida e saúde de toda a minha família, principalmente minha filha. Preciso aprender a dizer "eu te amo" para pessoas que não sejam a Alice. Eu até digo, mas normalmente preciso ouvir primeiro para depois dizer. Fiquei pensando, se eu tivesse perdido alguém, isso me pesaria a consciência pra sempre. Aquela sensação de que poderia e deveria ter dito e feito mais, que poderia e deveria ter sido melhor...
Enfim, família é pra sempre, mas as pessoas não são. 2014 me mostrou isso de um jeito sutil e agora preciso colocar em prática esse ensinamento e esse desejo de ser melhor filha e irmã. E mãe, porque, embora eu me esforce diariamente para ser boa pra Alice e sei lá no fundo que eu sou o melhor que posso, que sou a mãe que ela precisa; sinto também que posso sempre ser melhor.

Amigos: sou o tipo de amiga que fica sendo amiga sozinha, mesmo depois de ter várias provas de que a outra parte da amizade tá distante há tempos. Fui assim por muito tempo, mas agora em 2014 resolvi me afastar de algumas pessoas que há anos dizem que somos amigas mas, na prática, há anos não se preocupam em saber nem como eu estou. Tudo o que passei nos últimos meses, por exemplo, todo o drama que foi minha gravidez, todos os problemas que tive no trabalho nos últimos anos, todas as idas e vindas no meu relacionamento nos últimos 6 anos... tem gente que nem faz idéia de nada disso. E não por falta de "queria conversar, preciso de um conselho, preciso de um ombro". Porque sou também o tipo de amiga que não poupa detalhes e contatos. Se eu preciso e acho que devo, mando e-mail, msg, carta, recado e desabafo em linhas e linhas de drama e chororô. Mas faço isso porque estou sempre receptiva ao chororô alheio também, porque acho que amizade é isso. Além dos bons momentos, tem também o ombro nos piores momentos do outro. Só que, né? Cansei de só eu oferecer e gastar meu ombro, enquanto o outro lado tá pouco ligando se tô num momento difícil, se tenho com quem conversar, se não estou também com os meus problemas. Cansei de ir chorar e não ter resposta ou, quando tenho, a resposta ser "tô sem tempo, mas assim que der, te respondo" e nunca chegar a tal resposta. 2014 foi o ano de esfriar relações. Cansei de ser amiga sozinha.

Fé: 2014 definitivamente foi o ano que descobri minha fé em Deus e senti o poder Dele na minha vida. Foram tantos livramentos, tantos sinais, tantas intuições (que, pra mim, é simplesmente a voz de Deus falando no meu ouvido). Simples assim: eu creio e Ele tem estado comigo sempre.

Amor: faz algum tempo que meu relacionamento se tornou o tipo mais insuportável de relacionamento: aquele que termina e volta. Em partes por culpa minha, que sempre decidia terminar e em partes por culpa dele, que sempre dava os motivos pra eu querer terminar. Foi muita coisa e 2014 foi péssimo pra nós. Brigamos por coisas passadas, por coisas novas, por ciúmes, por falta de tempo, por falta de atenção, por falta de qualidade no tempo juntos, por exigências demais, por responsabilidade de menos, por amizades que não são muito bem vistas... Mas no fim do ano, faltando poucos dias para 2014 acabar, ouvi um conselho que, resumidamente, dizia o seguinte: "faça o que o seu coração mandar. Não perca tempo com mágoas, não perca tempo nenhum, não espere ser tarde demais." E o meu coração disse que a gente ainda pode consertar essas falhas todas, que juntos as coisas se resolverão, que juntos a nossa filha será mais feliz e nós seremos mais felizes e completos. Juntos de verdade, caminhando lado a lado, se apoiando um no outro, se esforçando pelo outro e, principalmente, pela nossa filha. Não é fácil deixar pra trás 6 anos de mágoas acumuladas e mal resolvidas, mas não estava sendo nada fácil também arrastar tudo isso comigo, mesmo nos últimos tempos eu alcançando grandes progressos deixando algumas coisas de lado e evitando pensar em outras. O que quero, de verdade, é melhorar como pessoa e como mãe e sei que vou conseguir melhorar de forma menos dolorosa se tiver o apoio dele, como sempre tive. E quero que ele melhore ao meu lado, como homem e como pai. Quero ajudar e estar por perto quando ele precisar. A felicidade da minha filha depende também da minha felicidade e da felicidade dele. Então, mais prático tentarmos mais prático
sermos felizes os três juntos, como uma família.


Tirinha linda da Ariane. Aqui tem mais: Lovemaltine

Enfim, 2014 foi um ano complicado, mas aprendi muita coisa. A gente sempre aprende alguma coisa quando se dispõe a aprender. Então, vou parar de pensar que foi um ano complicado e começar a pensar que foi um ano de aprendizados. Infelizmente, muita coisa eu aprendi com sofrimento, mas graças a Deus estou de pé, todos que amo continuam ao meu lado e 2015 será (já está sendo) um ano de aproveitar na prática o que aprendi até aqui.
É um pouco tarde pra isso, mas desejo que esse ano seja para todos vocês um ano de aprendizados e experiências boas. Com o sofrimento necessário para valorizar a vida e a leveza na alma para sorrir na hora de colocar tudo na balança e ver o quanto se evoluiu em 1 ano.


***
Trilha Sonora: Não tem, mas eu colocaria aqui alguma coisa como Tente Outra Vez - Raul Seixas se eu gostasse dele e dessa música. Combina com recomeços e formaturas etc e tal.

domingo, 28 de setembro de 2014

Digitais

Sempre me achei muito especial por ter uma impressão digital em forma de S. Achava que só a minha era assim e me orgulhava de ter um dedão tão legal e alfabetizado.
Até que um dia, não me lembro como, descobri que todo mundo* um monte de gente tem a impressão digital assim, basicamente em forma de S e o que diferencia uma pessoa da outra, a verdadeira impressão digital que se analisa minuciosamente; são riscos menores e quase imperceptíveis que compõem o tal S que eu pensava ser só meu.
Penso que seja assim com as pessoas. A gente acha que uma pessoa é única por causa da beleza, da simpatia, do estilo, do que ela sabe fazer. Mas não. As pessoas são basicamente as mesmas porque, mesmo o mais raro dos dons ou belezas, podem ser encontrados em outras pessoas pelo mundo.
O que torna uma pessoa única é o cheiro da pele dela que ninguém mais tem igual, é a voz dela que gravador nenhum é capaz de captar perfeitamente, é o contorno dos lábios que batom nenhum pinta completamente, é o jeito doce ou agressivo de olhar... mas, mais que toda essa beleza e graça invisíveis, o que torna as pessoas tão únicas e especiais é o que elas nos causam com um toque, um alô fora de hora, as borboletas que se agitam mesmo depois de anos adormecidas no estômago.
O que torna alguém único é, mais que qualquer coisa, o que ela é capaz de fazer com a minha vida depois que ela se vai.
Só a minha impressão digital em forma de S não pode ser alterada. O resto todo, quem eu sou, o que eu quero e as lembranças que ficam; nada disso voltará ao lugar nem em um milhão de anos, nem com um milhão de retornos e sensações únicas e arrepios inéditos.
Só eu sei ler essas impressões digitais que elas deixam na minha alma.


*Todo mundo ou quase todo mundo? Dei uma pesquisada na Wikipedia e parece que existem 3 padrões básicos, então nem todo mundo tem o dedão alfabetizado em S como o meu. Me sinto um pouco mais exclusiva outra vez com o meu polegar especial.


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Trilha Sonora: Biquini Cavadão se recusa a encerrar o show de uma música só na minha cabeça. Há 7 dias.

domingo, 21 de setembro de 2014

Cardiopatias

Essa semana me perguntaram no trabalho:
- Nossa! Coração dói? Tô sentindo uma pontada aqui no peito.
Respondi:
- Até onde sei, não dói. Ou não deveria doer, né...
A pessoa devia estar perguntando "cardiologicamente" falando, referindo-se a uma dor que poderia ser tanto um anúncio de infarto quando gases. Quase sempre são gases.
Mas respondi pensando na dor que eu ando sentindo mesmo. Aquela dor que não deveria existir, mas insiste em doer. Aquela dor que não deveria existir, porque em algum momento te juraram que não doeria, mas dói. Em algum momento te imploraram para acreditar que nunca doeria, mas dói.
Todo problema cardíaco tem remédio. Mesmo que não tenha cura, tem remédio, tem dieta, tem tratamento, tem exame para detectar e prevenir. A dor que sinto não tem. Não tem médico que cure, não tem remédio que mascare, não tem tratamento que controle, não tem exame preventivo. Ela vem e dói. Só dói.
Um dia deixa de doer ou a gente acostuma com aquele incômodo. Ainda não sei bem o que acontece. O lado ruim (e tem lado bom?) desse tipo de problema do coração é que ninguém sabe explicar nada e todos os casos são inéditos. São sempre dores únicas, mesmo que elas pareçam ser as mesmas.
Só não deixam de doer. Doem muito.


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Trilha Sonora: Juro que tem cantigas de roda tocando na minha cabeça num looping infinito e irritante. "da abóbora faz melado do melão faz melancia" ou alguma coisa assim.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A Última Gota

Eu tinha muito para dizer, eu tinha muito para perguntar, tinha muito para saber, mas não quero mais.
É como ficar cutucando aquela ferida que está quase secando e daí ela volta a sangrar e arde tudo de novo.
Cansei de cutucar feridinhas quase secas, cansei de oferecer minha pele para novas feridas serem abertas. Já tenho minha coleção de cicatrizes que nunca sumirão, não preciso de mais uma.
Chorei, sim, por menos de cinco minutos e só agora há pouco, mas disfarcei enquanto olhava a janela e bebia água para não ter que encarar ninguém e explicar e justificar e dar detalhes e me envergonhar de ainda estar nessa.
Ainda estou, mas tô saindo.
Já tranquei todas as portas e estou apenas procurando um bom e fundo buraco para enterrar as chaves.
Eu não preciso mais disso. Eu não quero mais isso.
O choro talvez tenha sido do alívio que sinto agora que consegui ver tudo com clareza, como se eu tivesse passado anos sem enxergar direito as coisas e agora, de repente, uma luz se acendeu na minha frente e percebi os passos tortos que eu estava dando em direção ao nada. O choro talvez tenha vindo pela tristeza de ver a verdade. A verdade dói, não dói? É o que sempre dizem.
E eu sempre disse que prefiro a dor da verdade do que a mentira que envenena. Saber da verdade é como a sensação de alívio depois de um tapa. Arde. Dói. Mas em poucos segundos a dor passa completamente e fica apenas aquele calor do sangue correndo quente debaixo da pele. E é enquanto o sangue está quente que a gente deve reagir depois de um tapa, depois de ouvir a verdade.
Já deixei para reagir depois, com o sangue frio e correndo mais calmo, mas me vi novamente e muitas vezes mais na mesma posição. Sendo envenenada pelas mentiras e implorando pelo tapa na cara.
Mas chega um dia que basta. Basta de venenos em pequenas doses, venenos em belos frascos e venenos antigos. Já provei todos e o que não mata, fortalece, não fortalece? É o que dizem também.
Agora que provei a última dose de veneno e consegui o tapa na cara que eu queria, tenho forças para largar esse hábito de cutucar as feridas, trancar a porta desse lugar que já desabou há tempos e esperar o corpo acostumar com todas as cicatrizes, colocar pra fora a última gotinha do veneno que se entranhou em mim e voltar a viver por quem vale a pena, contando apenas com quem realmente deseja estar ao meu lado e dando uma chance para quem está disposto a me estapear com as verdades sempre, sem me matar aos pouquinhos com os venenos que já conheço bem.
Continuo firme no meu caminho. Com a bagagem cada vez mais leve e livre de culpas.


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Trilha Sonora: A rádio mental começou com Lenine - A Medida da Paixão e terminou com Strokes - Last Nite. Boa troca.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Que Escolhi

Tenho passado tempo demais sozinha, acordada até tarde depois que a Alice dorme. Esse tempo tem sido bom para refletir, para questionar algumas coisas que faço, para me entender sobre decisões que tomei. Para me arrepender de algumas e reafirmar outras.
Ando pensando muito nas minhas escolhas, no que teria acontecido se em tal momento eu tivesse tomado o caminho da direita ou da esquerda ao invés de seguir em frente.
Cheguei a uma conclusão inconclusiva apenas: tudo o que tenho hoje foi escolha minha. Tudo o que não tenho hoje foi escolha minha.
Minhas decisões estão pesando nos meus ombros e ao mesmo tempo me dando o alívio de ver que o peso poderia ser maior hoje.
Me sinto orgulhosa por ter a coragem que muitos não tiveram e nunca terão de jogar tudo pro alto nos momentos incertos e recomeçar, forçando cada momento a se tornar certo.
Ainda cometo erros, ainda preciso de ajuda com muita coisa, ainda me perco dentro de mim. Mas por fora, mesmo que doa, sigo firme tentando acertar, tentando me encontrar
Hoje entendo que tudo na minha vida pode ser o que eu quiser que seja. Se eu posso escolher ficar ou partir, amar ou odiar, calar ou falar... Vou escolher sempre o que me doer menos e me ensinar mais.
Tudo é opção. Tudo é escolha.
Minha opção foi amadurecer, me tornar responsável por outra vida, me tornar diariamente melhor do que fui ontem.
Não é fácil lutar contra velhos hábitos, não é fácil se desfazer de antigos fantasmas. Mas a bagagem precisa ser leve se eu quiser seguir em frente.
Se passei um tempo perdida, sem rumo e sem planos para o futuro, posso dizer que hoje sei exatamente onde estou e para onde quero ir. Sei quem eu não sou e o que eu não quero pra minha vida, mesmo não tendo plena certeza de quem sou e do que quero. Minha única certeza é o caminho que pretendo seguir.

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Quem conhece bem as músicas da Alanis, deve ter notado que tomei emprestado um verso de Precious Illusions (mais a idéia dele do que ele todo). É que não achei meio mais apropriado de expressar o que eu queria dizer. Sabe aquela coisa de "tal música fala por mim"? Pois então. Essa é só mais uma dessas músicas.

O clipe (lindo) e a música completa, pra quem curte ou não conhece e ficou curioso.

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Trilha Sonora: Enquanto Durmo - Zélia Duncan.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Enquanto o Sol Nascia

Hoje veio aqui em casa aquele casal de amigos que mora na cidade onde moramos juntos por tão pouco tempo.
Eles passaram naquela padaria 24h e trouxeram o pão para o café da tarde.
Parece bobagem e, talvez você nem tivesse sentido o que senti, mas quando abri o saquinho dos pães voltei rapidamente e por poucos segundos naquelas manhãs em que íamos caminhar para aliviar as dores que eu sentia nas pernas no final da gravidez e, já que estávamos acordados, aproveitávamos o embalo e íamos até lá, tomávamos café da manhã, pedíamos os pães e os frios para o lanche da tarde e voltávamos para casa para que eu tentasse dormir um pouco.
Foram os últimos momentos que senti algum tipo de cumplicidade entre nós, enquanto éramos mais que um casal, quando conseguíamos ser amigos e ríamos juntos e conversávamos sobre a vida, sobre nosso futuro, sobre os nossos planos, sobre a gravidez, sobre nós. Não me lembro se todos os momentos de caminhadas foram assim, mas só consigo guardar comigo a imagem de um casal meio perdido com a vida a dois e gostando da aventura.
É estranho porque, quando penso nisso, meio que vejo a cena por cima, como se eu não fizesse parte daquilo e estivesse lá do alto olhando para nós lá embaixo, naquelas manhãs geladas que faziam naquela época do ano. Nos vejo caminhando sem pressa por causa das minhas pernas doendo, do peso da minha barriga e da nossa vontade de prolongar aqueles momentos tão nossos que, sabíamos, não durariam para sempre.
Tivemos o privilégio de passar meses em casa, sem compromissos, sem horários, sem preocupações externas. Só nós, só os nossos problemas e as nossas saídas de emergência, quando corríamos do outro lado da rua, fazíamos uns cálculos rápidos e conseguíamos mais um tempinho de tranquilidade financeira. Ironicamente foi esse privilégio um dos motivos do nosso fim.
Se eu soubesse que acabaria como acabou não sei dizer se eu mudaria algo, mas tenho certeza que teria te chamado para caminhar mais vezes, teria aproveitado mais aqueles últimos momentos de cumplicidade e leveza e, pode ter certeza, teria dito naqueles momentos entre um pãozinho e outro o quanto eu gostava da sua companhia.

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Trilha Sonora: Walking After You - Foo Fighters. Uma das poucas músicas do Foo Fighters que eu gosto de verdade.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Bagagens

Quando você entra em um relacionamento, você não chega de mãos abanando. Ninguém chega, mesmo que seja o primeiro relacionamento, você traz a sua experiência de vida, o que aprendeu observando relacionamentos alheios, os seus pais, os amigos, o casal fictício da série que você acompanha, o casal de pinguins que você viu no documentário da aula de ciências.
E essa experiência que a gente carrega é o que nos faz buscar isso ou aquilo em uma outra pessoa. Não é do nada que você quer o que você quer, seja lá o que for que você queira.
Minha bagagem é pesada, admito. Não que eu tenha me relacionado muito ao longo dos meus 28 anos. Muito pelo contrário. O problema é que os poucos relacionamentos que tive e até o relacionamento que sonhei anos e não vivi me deixaram marcas profundas demais. Fui feliz, sofri, aprendi, superei, mas não apaguei nada.
Já me disseram que eu estava castigando uma pessoa pelos erros de outras pessoas. Sim, sou dessas. Me fecho e me protejo do que pode nem acontecer, apenas baseada no que já aconteceu. É que sempre há a possibilidade. Até que me provem o contrário (e nunca provaram) os erros podem sempre se repetir, mesmo que o autor do erro seja outro, mesmo que a intenção seja diferente, o erro pode sempre acontecer duas, três vezes e mais, enquanto eu permitir que aconteça. E "permitir" não é me culpar pelo erro do outro. É dar tempo para que ele aconteça antes que eu pule fora e termine a relação.
Com cada relação que termina, adiciono mais alguns itens na minha bagagem e o próximo que entrar na minha vida precisará ser sempre mais forte que o anterior, porque ele vai ter, sim, que aguentar essa bagagem enquanto não provar que posso me desfazer de tudo e começar do zero. Ou quase do zero, porque vou sempre acreditar que algumas coisas a gente não pode se desfazer de forma natural e sem dor. Como os quilos que ganhamos depois dos 20 anos, as marcas que outras pessoas nos deixam são pra sempre e, de certa forma nos moldam e nos tornam o que somos. Para o bem e para o mal.
Então, se eu fiz alguém sofrer pela bagagem deixada por outros, pode ter certeza, farei o próximo sofrer também pelo que foi deixado agora.
É como um karma a ser pago por outras pessoas. Você comete o erro, mas quem paga é alguém que ainda nem sabemos quem.
A má notícia é que essa bagagem não tem rodinhas e fica cada vez mais pesada.

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Trilha Sonora: Rooster - Alice in Chains.

sábado, 5 de julho de 2014

Velhos Hábitos

Outro dia estava distraída, trabalhando, quando me peguei torcendo meu dedo indicador em busca de um anel que eu costumava usar no polegar da mão direita.
Acontece que não uso anéis há mais de um ano. Mas me peguei buscando o tal anel do polegar e estranhei por alguns segundos quando não o encontrei ali, preso ao meu dedo, preso a mim.
Estranhei e, como num pulo de espanto dentro do meu peito, pensei rapidamente "perdi!" e antes de concluir a retrospectiva dos lugares onde eu poderia, talvez, ter deixado o anel, me lembrei que aquele anel que eu estava procurando estava guardado, bem guardado no lugar onde eu mesma resolvi guardar.
Logo que tirei do meu dedo, eu costumava fazer o mesmo movimento do indicador em direção ao polegar, mas não para buscar a peça ausente. Fazia para sentir a marca que ficou depois de tantos anos com ele ali, me apertando quando eu engordava um pouquinho, me distraindo enquanto eu o girava segurando com os dedos da outra mão, enfeitando minha mão de dedos curtos e gordinhos.
Acostumei a não tirar. Não tirava para tomar banho. Não tirava para lavar louça. Não tirava para combinar uma roupa ou outro acessório. Tudo devia combinar com ele, tudo seria adaptado ao estilo dele e eu não precisaria tirá-lo, eu decidi. Era só adaptar todo o resto à minha volta para que combinasse com ele.
Só que um dia eu precisei tirar o anel do dedo. Tirei e guardei na caixinha de jóias. Continua lá.
De vez em quando eu sinto a falta dele agarrado tão apertado no meu dedo que nem parecia que não era parte de mim.
Me esqueço que escolhi colocar e escolhi tirar. É quando abro a caixa onde o guardei, tiro, admiro, tento colocar no meu dedo e percebo que não me serve mais, não combina mais com o resto das coisas que uso. Talvez até entre, mas tenho medo que não saia nunca mais e acabe necrosando meu dedo ou me obrigando a usar uma serrinha para tirá-lo aos pedaços.
Então o devolvo no lugar dele e afirmo pra mim, numa tentativa de desapegar: "esse anel não serve mais no meu dedo".
Não é que eu não queira usar ou não goste mais dele. Só não serve mais no meu dedo como antes. E é só isso.

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Trilha Sonora: Grão de Amor - Arnaldo Antunes e Marisa Monte. Coisa linda essa música e esses dois cantando juntos.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Através do Espelho E O Que Encontrei Lá

Estava vendo no Catraca Livre sobre um projeto de uma fotógrafa que registrou o corpo de várias mulheres na gestação e as marcas que o parto deixou depois.
São fotos lindas, em preto e branco, sem photoshop, tudo muito delicado e transbordando maternidade (sabe relação de mãe e bebê, que só quem é mãe sabe? Aquela intimidade e amor puro? Então).
Fiquei olhando e pensando no que o parto fez com o meu corpo. Na minha dificuldade em aceitar as marcas que ganhei.
Falei disso poucas vezes desde que minha filha nasceu e, acho que das duas ou três vezes que falei, não senti nem metade do apoio que eu esperava e, por isso, me fechei mais sobre o assunto.
Nunca fui magra. Sempre fui de gorda a gordinha, passando por fases menos gorda, mas estando a maior parte do tempo no estágio gorda e ponto.
Quem é gordo sabe, o corpo não é só banha. É também estria e celulite. Tenho tudo. Já tive estrias roxas nas pernas, mas elas sumiram magicamente e só ficaram as estrias brancas, mas bem fracas, nem chamavam atenção.
Nunca me incomodei de verdade com a minha imagem no espelho. Podia olhar e não ficar satisfeita, aí fechava a boca por uns dias e perdia alguns números na medida do quadril e barriga. Mas eu sempre olhava meu corpo no espelho. Mesmo que procurando os defeitos, eu olhava meu corpo no espelho. Vestida, nua, depois do banho, me arrumando pra sair.
Durante a gravidez, eu não engordei como todo mundo imaginava e, pelo contrário, de certa forma perdi peso. Terminei a gravidez pesando pouco mais de 5kg além do que eu pesava no início, o que significa que o meu corpo perdeu gordura e ganhou peso de bebê+água+barriga. Como eu estava bem acima do meu peso, isso foi bom no fim das contas.
Acontece que, apesar da cintura estar mais fina, minha barriga estava tomada de estrias. Passei cremes conforme o médico recomendou, evitei tomar sol conforme todo mundo alertou, cuidei um pouco (muito pouco) da minha alimentação, mas não mudou nada. Quando a bebê nasceu, restou pra mim uma barriga flácida e cheia de estrias escuras.
Além disso, ela nasceu de uma cesárea, então ganhei também um corte cirúrgico logo abaixo da minha barriga e, por necessidade médica ou barbeiragem obstétrica (nunca saberei), uma tatuagem que tenho e me fazia gostar um pouco mais do meu corpo, foi estragada no parto porque o corte terminou bem em cima do desenho e depois que levei os pontos, ficou uma coisa meio remendada.
Tudo isso é coisa que ninguém vê e nem imagina se não tiver a oportunidade de me ver sem roupa. E tudo isso é coisa que nem eu vejo direito mais.
Há 1 ano e 7 meses eu não me olho direito no espelho. O corte da cesárea e a cicatriz que ela deixou, só tive coragem de olhar por poucos minutos há uns 2 meses. Todo o resto eu evito olhar. Tomo banho olhando pra frente, me visto olhando pra roupa, me arrumo sem me encarar no espelho e só foco o olhar nos detalhes que preciso num momento específico.
Tudo isso para dizer que não, não estou satisfeita com os efeitos da gravidez no meu corpo. Não é fácil aceitar uma cicatriz que eu nem sei direito como é. Não é fácil encarar minha barriga listradinha, mesmo que fotos na internet me encorajem a pensar que somente mulheres fortes como tigresas merecem listras no corpo.
Aí volto ao começo do post, às fotos das grávidas e mães recém nascidas. Como é estranha nossa mania de olhar o outro e conseguir ver beleza e graça nas exatas mesmas coisas que nós temos e não aceitamos... Como é hipócrita da minha parte, comigo mesma, admirar o corpo alheio e não ser capaz de encarar o meu próprio corpo com a admiração maior, justamente por ser o meu corpo.
E, por fim, se você, leitor ou leitora (mesmo que não comentem, eu sei que estão aí. O Analytics me disse), é do tipo infeliz ou traumatizado com o seu corpo, pára e pensa. Veja se não está cometendo com você a mesma injustiça que cometo comigo. Não tenho um conselho pra te dar e muito menos um final feliz pra esse post, nada como "então, a partir de agora amo meu corpo e me aceito e vou fazer topless na praia amanhã e vou usar blusa de barriga de fora e vou posar nua mês que vem". Nada disso. Continuo infeliz, insatisfeita e evitando me olhar, mas hoje, vendo as tais fotos, percebi o que estou fazendo. Se ter consciência dos erros já é o primeiro passo para a mudança, talvez esse seja um dia marcante. Se não for, valeu a reflexão e achei que devia dividir isso com mais gente porque, de vez em quando, a resposta para os nossos problemas está no espelho dos outros.

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Trilha Sonora: Tem uma melodia na minha cabeça, mas não sei se inventei ou se ouvi e não sei o nome. ;ou tô louca e nem tem nada.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Aqueles lugares onde ninguém se atreve a entrar

Estou lendo um livro novo, Caderno de Um Ausente (do João Anzanello Carrascoza, depois falo melhor do livro) e, logo no começo, tem uma frase que fala assim:
"...apesar do que dizem sobre os casais - que tanto se conhecem a ponto de se confundirem - o mistério de cada um só a ele pertence, há regiões nossas às quais nem nós mesmos alcançamos."
O livro me parece todo lindo (estou nas primeiras 20 páginas ainda), mas essa frase em especial ficou martelando na minha cabeça e voltei várias vezes nela.
Quantos relacionamentos eu mesma não estraguei com a minha mania de querer penetrar tão intimamente na vida do outro e, ao mesmo tempo, não permitindo que o outro fizesse o mesmo quando foi o caso dele querer?
Não falo somente de relacionamentos amorosos, embora isso fique mais evidente quando estou apaixonada por alguém, mas falo também dos relacionamentos familiares, com amigos... afetivos em geral.
Sou o tipo de pessoa que gosta muito de ouvir, quero saber de tudo, quero detalhes, não me contento com histórias contadas de forma resumida (quando a história é do meu interesse, claro). Quero que o outro reproduza as falas exatamente como ocorreram, quero que me conte com detalhes e imitações de tom de voz e entonações corretas em cada palavra que foi dita numa conversa da qual eu não tenha participado, mas por um ou outro motivo, eu ache que tenha o direito de saber como foi.
Eu me acho no direito.
Mesmo que eu nem sempre peça ou deixe isso claro, eu espero que as pessoas se abram totalmente comigo, me contando detalhes e deixando suas histórias todas expostas como feridas abertas, mesmo que ainda não tenham cicatrizado nelas e, nesses casos, exijo tanto que não me importo em ver as feridas abertas, sangrando, em carne viva bem na minha frente. Só quero ver tudo, saber tudo.
Mesmo que o assunto me magoe e principalmente quando o assunto me magoa. Sou forte e aguento ver o sangue jorrar bem na minha cara sem desmaiar.
Acontece que, mesmo me expondo mais do que eu deveria em alguns relacionamentos, eu nunca me abro o suficiente o tempo todo. Há sempre em mim, lá no fundo, uma porta trancada cuja chave foi jogada fora há muito tempo. Eu até sei onde está a chave, porque eu estava lá quando ela foi atirada pra longe, mas eu não quero buscar, não quero destrancar porta nenhuma e, principalmente, não quero que ninguém tente abrir essa porta.
De vez em quando, sem que ninguém perceba com clareza, eu permito que uma coisa ou outra trancada atrás dessa porta apareça na janelinha escura (porém devidamente trancada e coberta por uma cortina escura) e olhe o mundo aqui fora ou eu mesma vou dar umas espiadas lá dentro, sem entrar e sem deixar que me vejam por ali. Só para ver como as coisas estão e ter certeza de que o lugar delas é exatamente onde estão, trancadas e esquecidas.
E quanta coisa, então, eu penso que sei sobre os outros e não sei? Se tanta coisa as pessoas pensam que sabem sobre mim e não sabem, mesmo achando que eu já falei tudo, que eu mostrei todos os lados de todas as histórias, que eu abri todas as minhas feridas... Nada me garante, então, que as pessoas não estejam me proibindo também de entrar nesses cantinhos escuros que eu mesma também escondo delas.
O que eu quero dizer é que, por mais que a gente queira, tente e ache que conseguiu, a gente nunca conhece de verdade e totalmente a história das pessoas.
E, no fim das contas, isso não é uma coisa ruim se você espiar pela sua frestinha de janela e conseguir enxergar bem o tipo de coisa que anda escondida lá dentro, atrás daquela porta que você fez questão de trancar e perder a chave. Se você não aguenta certos monstros seus, que você mesmo criou ou acabou abrigando, como é que vai aguentar os monstros alheios?
É melhor que cada um mantenha suas chaves bem escondias mesmo e que não se fale mais nisso.

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Trilha Sonora: Nem tem. Tô ouvindo pouca música ultimamente.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O Amor - Vida e Obra

Começa com aquela paixão, aquela necessidade de ouvir a voz do outro todo dia, aquele desejo incontrolável de estar junto, abraçando e beijando o tempo todo, aquela sequência sem fim de planos pro futuro, aqueles apelidos carinhosos e cafonas, aquela beleza reluzente que só você vê e acha que o mundo todo tem inveja.
Depois chega aquela fase do comodismo, quando já não é necessário esconder o que você foi fazer no banheiro bem no meio do filme que estavam vendo, já não é importante tirar as remelinhas do canto do olho rapidinho antes que o outro acorde, já não tem problema se você estiver de pijama e continuar o dia todo assim na companhia da tal pessoa.
Por último vem aquela fase onde uma briga que antes terminaria com um "me perdoa?" passa a terminar com uma nova briga começando por um novo motivo ou um velho motivo, tanto faz, desde que seja um motivo bom o suficiente pra fazer a conversa terminar com um dos dois seriamente magoado e aquelas dúvidas sobre continuar ou não com um relacionamento tão deteriorado.
Essa é a vida do amor. Com uns detalhes a mais ou a menos, variando de caso pra caso, mas basicamente assim.
A obra é que a parte bonita. É tudo o que ficou de herança depois que ele se foi. Pode incluir fotos lindas, lembranças de bons momentos, a experiência de um casamento, as viagens de última hora, as visitas inesperadas, as noites em claro falando no telefone, o perfume inesquecível, o som da voz que ecoa relendo velhas cartas e bilhetes, os presentes não devolvidos, a filha linda que foi idealizada e sonhada por anos, as cicatrizes de tudo o que passou e não apagou, os planos que nunca se realizaram mas foram divertidos de planejar.
Não é uma regra, existem também os que acabam, mas não passam por esse ciclo.
Mas feliz mesmo é quem tem a sorte de achar aquele tipo raro que não acaba e não se deixa abalar. Esse é o motivo que não me deixa virar uma pessoa amarga e fechada pra vida: não deu certo agora, mas um dia pode dar.

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Trilha Sonora: Linda Rosa - Maria Gadú. Tá na minha cabeça desde ontem, sem parar.