sábado, 4 de fevereiro de 2017

Tamo aí! Eu acho.

Começo de ano é aquela coisa linda, aquele misto de esperança em dias melhores com confiança nas pessoas e umas boas doses de auto-estima elevada. É gostoso de ver.
Aí chega o primeiro dia útil e você volta a trabalhar, percebe que os problemas de 2016 não se resolveram magicamente na virada da meia noite do dia 31 de dezembro pro dia 1º de janeiro e quem era escroto continua escroto, quem mentia continua mentindo e os serviços até então feitos nas coxas por outra pessoa continuarão sem solução, embora precisem de solução e, olha que delícia, a urgência por essas soluções encontra-se to-di-nha sentada e rebolando no seu colo, buscando se acomodar da melhor forma possível porque, aceite! Agora é tudo problema seu. No caso meu. É isso aí pessoal. Fevereiro recém começou e eu já estou tendo indícios de estresse no trabalho e, quando eu começo a me estressar eu tenho duas reações: no trabalho eu travo e passo a enrolar o máximo que posso para não ter que admitir que não vou conseguir e em casa eu começo a ficar irritada com pouca coisa. Pra quem tem uma família grande e uma filha pequena, isso é um barril de pólvora e eu sou o fósforo prestes a ser riscado. Ontem briguei com a criança (ela mereceu, não estava agindo com muito respeito), mas passei dos limites e levei a um grau um pouco mais alto uma bronca que poderia ter sido apenas uma bronca de rotina. Nos entendemos antes de dormir, porque sempre acabamos fazendo as pazes antes de dormir. Fizemos um acordo de amigas e agora vamos nos ajudar quando a outra estiver passando dos limites. No fim das contas, apesar das dificuldades e de todo o desgaste que rola na maternidade, eu e a Alice somos uma boa dupla. Nossa parceria funciona muito bem e eu não imagino meus dias sem ela. Ainda bem.
Mas teve também um monte de coisas que eu pretendia fazer ontem e não fiz. Teve uma série de verdades inconvenientes que eu acabei falando sem necessidade naquele momento (não retiro o que disse, mas admito que não precisava ter dito) e teve uma Camila indo dormir tarde, mas antes da hora planejada, já que eu planejava umas horas acordada vendo um filme, relaxando, lendo... Mas simplesmente apaguei logo depois que finalmente consegui fazer a criança dormir.
Aquele momento que você percebe que está, novamente, perdendo o controle de coisas que deveria (ou gostaria de) controlar.
Como sou muito boa de conselhos que não sigo, ontem falei pra Alice que o dia não tinha sido muito divertido, mas que hoje ela poderia tentar de novo ter um dia legal. E é verdade, mas só vale pra ela, porque eu tenho certeza que acabei de entrar naquele túnel super estreito e longo da auto-sabotagem que me leva a lugares indesejados. Preciso ir até o fim do túnel agora e depois que puder sair, eu preciso voltar consertando as coisas todas que acabei quebrando no caminho.
É isso aí, essa sou eu. Essa é minha vida. Tá ruim, vai ficar pior, mas depois melhora.

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Trilha Sonora: Tava curtindo o silêncio até ouvir o som da criança se espreguiçando aqui. O dia começa agora.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Amor Preferencial

Acostumado a andar sozinho desde que ficou viúvo, vinte e tantos anos atrás, Seu Oswaldo não esperava nunca mais encontrar outra companheira para a vida toda. Ou para o que ainda lhe restava da vida.
Mas ao embarcar no ônibus de costume, a caminho do centro da cidade, para onde ia com frequência resolver as coisas da aposentadoria, jogar dominó com os amigos do clube da terceira idade ou comprar um remédio para uma doença qualquer que ele gostava de achar que tinha para se ocupar com alguma preocupação que ele já não precisava ter naquela fase da vida sempre saudável (os médicos diziam, ele duvidava), Seu Oswaldo avistou, no banco preferencial, a senhorinha mais linda que ele já havia visto nos últimos anos, desde a partida de Dona Esmeralda. Foi amor à primeira vista, apesar da vista já um pouco fraca pela avançada idade. Limpou bem os óculos, tornou a colocar as lentes no rosto e, estufando o peito, pediu licença e sentou-se ao lado dela.
Puxou uma conversa como quem não quer nada, mas sentia-se um adolescente por dentro, frio na barriga e tudo. Ela sorria. Ela sorria com os olhos quando falava! E ele sorria de volta.
A viagem de 40 minutos parece ter passado em 5, tanta coisa ele queria saber, queria conversar...
Deveria descer no próximo ponto, mas decidiu aproveitar que não pagava mais passagem e fez-se de bobo, perdeu o ponto de propósito, torcendo para que ela não desembarcasse no próximo, antes que ele pudesse pelo menos saber o seu nome, como encontrá-la de novo.
Foram até o ponto final de ônibus e o motorista, acostumado a ver sempre Seu Oswaldo naquela linha, mas nunca até aquele destino, interrompeu os dois:
- Ô, vovô! Esqueceu de descer hoje ou veio passear pra essas bandas?
Seu Oswaldo, entre constrangido e humilhado, disse que precisava resolver qualquer coisa ali por perto, não tinha errado o ponto, não e aproveitou a oportunidade para perguntar se a sua nova amiga morava por ali.
A senhorinha respondeu que havia ido visitar uma amiga.
Alceu, o motorista muito esperto e acostumado a ver romances começando em seu ônibus, tratou de adiantar o lado dos dois:
- Então, até amanhã Seu Oswaldo. Amanhã é dia do Sr. ir jogar dominó no clube da terceira idade, né? Já decorei sua agenda. Lá pelas 14:30 eu passo no ponto perto da sua casa. E a senhora, dona Laura, sai tão pouco de casa ultimamente. Ainda mora ali perto da catedral? Já conhece o clube da terceira idade aqui da cidade? Conta pra ela, vovô. Convida ela pra ir lá. Até amanhã, então!

Seu Oswaldo e Dona Laura seguiram em rumos opostos naquela tarde. Mas no dia seguinte, às 14:00, ela já estava dentro do ônibus, aguardando no banco preferencial, ansiosa pelo momento que veria novamente o adorável Seu Oswaldo, por quem ela havia perdido a consulta médica marcada há meses, mas que poderia ser remarcada depois. Ela sentia que teria ainda todo o tempo do mundo para isso. Urgente agora era rever o seu Seu Oswaldo.


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A ideia e o título desse continho estavam na minha cabeça há muitos anos, sem que eu tivesse sentado para desenvolver direito a história. Até que lembrei dessa notícia aqui e aproveitei o momento de ócio e silêncio raros para resolver esse assunto.

Fonte: Razões Para Acreditar ( ♥ amo esse site ♥ )


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Trilha Sonora: Estava ouvindo essa playlist delicinha aqui, feita pela Raquel do Draminha.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Como Uma Música Salva Uma Pessoa

Em março desse ano, acho, eu fiquei doente. Não foi gripe ou catapora (aliás, nunca tive catapora) e nem precisei fazer cirurgia. Fiquei doente da cabeça mesmo. Ou da alma, como dizem.
Os 3 médicos que me atenderam naquela semana disseram, um sem saber do diagnóstico do outro, que eu estava passando por uma crise nervosa. Até que, numa noite qualquer, eu surtei. Eu travei. Eu fui para o hospital numa ambulância e passei uma semana descansando em casa, sem trabalhar e evitando me estressar. Foi bem sério, mas não é sobre o colapso em si e as causas dele que eu quero falar.
Quero falar que, naquele momento, apesar de um restinho de racionalidade me fazer sentir medo de acordar minha filha e ela me ver daquele jeito; o que me manteve lúcida mesmo foi uma música. Não foi o amor pela minha filha, não foi o desejo de vê-la crescer, não foi a vontade de viver (e tudo isso existe e existia mesmo naquele momento). Foi uma música.
Enquanto eu estava semi consciente, no chão, sem conseguir me mexer, sem conseguir falar, sem conseguir enxergar absolutamente nada, alguma coisa me dizia que, se eu fosse capaz de continuar repetindo mentalmente os versos de Need You By My Side, do The Sun Parade, eu conseguiria me manter sã. Foi como se eu estivesse me equilibrando em uma linha muito fina entre a loucura e a sanidade. E essa linha era essa música. Eu repeti mentalmente muitas e muitas vezes os versos "I fell it collapsing inside me My life while I struggle inside Could you please be my constant? Cause I have fifty thoughts at a time" e de alguma forma que nunca saberei explicar, sei que eles mantiveram parte do meu cérebro funcionando como deveria funcionar.



Poderia ter sido qualquer música de uma lista enorme de músicas que eu gosto e ouço a vida toda, há muitos anos ou há algum tempo... mas foi essa. Postei aqui quando conheci e me apaixonei por essa banda e citei essa música, inclusive. Continuo ouvindo muito, mas naqueles dias, não sei o motivo de ter "escolhido" ela pra me salvar do que eu nem sei. Mas foi ela.
Desde então, tenho prestado atenção aos sinais de qualquer cansaço aparentemente fora do normal, mas quando sinto que estou prestes a surtar de novo, eu ouço essa música, eu canto, eu me lembro dela e eu me mantenho em pé, seguindo meu caminho.
Nunca pensei que uma música se tornaria tão importante pra mim, mesmo sempre tendo sido apaixonada por música, mas essa, naquela ocasião, tenho certeza que me salvou de um destino muito diferente do que eu quero pra mim.

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Trilha Sonora: Comecei com Need You By My Side e passei por várias outras enquanto escrevia, mas tive que ouvir de novo quando abri o vídeo pra pegar o link. 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Tom,
Ainda não nos conhecemos e, nesse momento que escrevo, você conhece poucas coisas além do som da voz da sua mamãe e os barulhos do corpo dela, que, até então, eram tudo o que você conhecia como o mundo.
Há dias eu queria te escrever uma carta, que deveria ter ido junto com o presente que comprei pra você. Cheguei até a rascunhar alguma coisa em um papel lindo, mas por mil razões, acabei adiando. Os adultos sempre fazem isso, Tom: adiamos coisas que são importantes, mas não urgentes naquele momento. De vez em quando isso nos faz perder o fio da meada e boas ideias acabam escapando. Mas, outras vezes, pode acontecer diferente e, nessa de "depois eu faço", a ideia vai ganhando mais forma e sai do papel no momento certo. E ainda bem que me atrapalhei um pouco e acabei não escrevendo dias atrás, porque acordei hoje e no caminho para o trabalho, pensei em você e na sua mãe. Fiquei imaginando se ainda faltava muito tempo para você sair do quentinho e gostoso que era sua antiga casa e se a sua mãe estaria bem. Pelas minhas contas, mais ou menos naquele momento vocês deviam estar se conhecendo ainda e pouco depois, quando eu soube da sua chegada, a inspiração veio toda de uma vez para escrever.
Você não imagina ainda, mas é um garoto muito amado e querido por pessoas que moram em todo canto do mundo e, assim como eu, foram se enfiando na sua vida mesmo antes de você chegar, sem te pedir permissão para participar desse grande evento que começa hoje, com o seu nascimento. Parece falta de educação chegar sem ser convidado, mas é só amizade. As amizades começam assim mesmo. Um conquista o outro e, sem aviso ou permissão, as pessoas se enfiam nas vidas umas das outras e vão ficando, ficando... Mas deixa isso pra depois, que você tem uma vida muito longa pela frente e terá tempo e chances infinitas de aprender o que é amizade e como se faz um amigo, que é coisa muito importante, mas não é urgente agora.
Urgente agora é aprender a respirar, aprender a sugar da sua mãe todo o amor e a proteção em forma de alimento líquido que ela vai te dar por alguns meses e, confiem em mim (você e a mamãe): serão os momentos mais mágicos e intensos desse seu comecinho de vida. Sua mãe vai descobrir coisas incríveis, coisas lindas, coisas assustadoras e coisas divertidas por um bom tempo. Mas tenha paciência com ela, Tom, porque ela está tão recém nascida quanto você nessa coisa de ser mãe e ter nos braços uma coisinha tão pequena de tamanho e tão grande de importância que é um bebê, um filho. E nos primeiros meses ela deve ficar meio chorona ou assustada. Cuide bem dela, da mesma forma que ela vai cuidar bem de você. 
Quando você tiver idade para perguntar e entender o mundo, não se esqueça de perguntar a ela como é a Terra do Nunca. Foi lá que conheci sua mãe, alguns anos atrás. É um lugar divertidíssimo e cheio de coisas loucas. Pergunte também da Terra do Gelo e de tantos outros lugares que ela já conheceu. Sua mãe deve ter muita coisa pra te contar e te mostrar. Fique grudadinho nela o máximo que puder e saboreie cada palavra das histórias e músicas que ela deve ter pra você.
Por muitas razões que você vai aprender a reconhecer ainda, você é um menino de muita sorte. Mas a sua maior sorte foi ter nascido dessa mulher linda e corajosa que é sua mãe. Tenho certeza que você terá uma vida incrível com os cuidados dela e ela terá uma vida cheia de alegrias e orgulho cuidando de você.
Seja bem vindo ao mundo, Tom! Não é grande coisa, eu admito, mas a sua chegada acaba de fazê-lo um lugar melhor para muita gente. 
Espero poder te ver em breve, garoto.
Um cheirinho e um afago (não pode dar beijinho e nem apertar bebês tão pequenos como você),
♥

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Trilha Sonora: Escrevi enquanto trabalhava, então não tem trilha sonora. Mas eu estava ouvindo Amazing - Aerosmith pouco antes de saber da chegada do Tom.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Um dia minha mãe enlouqueceu.
Não. Não foi assim, um dia. Hoje eu sei que tudo foi acontecendo aos poucos, até que ela…
Começou quando eu era pequena demais para perceber qualquer coisa. Achava divertido minha mãe estar sempre em casa, disponível para brincar comigo e ficar na cama até tarde quando eu não tinha escola. Depois, conforme fui crescendo, passei a achar constrangedor receber amigos em casa e minha mãe estar sempre de camisola e despenteada pela casa. Eu evitava receber amigos em casa. Atendia todos no portão e de lá a gente seguia pra qualquer canto que não fosse a minha casa.
Minha mãe parou de pentear os cabelos e foi adquirindo aos poucos um ar de selvagem, como se estivesse sempre fugindo de alguma coisa que não lhe dava tempo de parar e pentear os cabelos. Quando ela estava medicada, ela prendia os cabelos no alto da cabeça, num rabo de cavalo desajeitado e volumoso que, nas primeiras vezes eu achei graça por ficar parecida com uma couve flor ou um brócolis. Depois aquilo perdeu a graça e ela só se parecia com uma louca mesmo.
De vez em quando ela chorava enquanto prendia o cabelo e, conforme o tempo passou, percebi que era um choro de dor. Amarrar aquele emaranhado de fios era tão dolorido quanto apertar dentro da cabeça dela aquele emaranhado de pensamentos, de lembranças e passado. Ela só tinha passado. Não tinha mais futuro nenhum há muito tempo e, conforme eu desenhava o meu futuro longe dela, aceitando que ela acabaria mesmo cada vez mais louca, sob os cuidados dos meus avós ou de alguma clínica, eu sentia a gente se afastando cada vez mais.
Quando fiz 19 anos, saí da casa dos meus avós. Passei a visitar a cada 15 ou 20 dias e mandava o dinheiro que podia para ajudar com os médicos e remédios que já não ajudavam em nada aquela cabeça tão doente e despenteada.
Eu sentia dó. Eu sentia raiva. Eu queria entender o que aconteceu.
Hoje, 5 anos depois que ela se foi, acordei e senti vontade de não pentear os cabelos. Semana passada descobri que estou esperando um bebê e antes de comprar o primeiro sapatinho, decidi cortar meus cabelos tão curtos que eu nunca mais precise pentear.
Acho que foi assim que começou com ela, mas talvez eu tenha encontrado um jeito de nunca precisar prender os cabelos e não sentir a dor que ela sentia.
Em vez de oferecer um pente, devia ter oferecido a tesoura.


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Conto publicado há alguns dias no Medium. Tive a ideia do primeiro parágrafo e depois, quando sentei pra escrever, o resto foi saindo naturalmente. Não sei ainda se gostei ou não, mas publiquei pra não deixar guardado como tantas coisas que ando escrevendo e não publicando.

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Trilha Sonora: Heart's Out - The Sun Parade. Continuo viciada, apaixonada, encantada e ouvindo muito essa banda. <3