ou O Dia Que a Fada do Dente Morreu (spoiler: eu a matei)
Desde que me tornei mãe, quase 14 anos atrás, decidi que seria o tipo de mãe que incentiva o lúdico, que estimula a criatividade, que valoriza e embarca junto na imaginação. Mas não bastava só incentivar e estimular. Eu escolhi me esforçar, escolhi ter trabalho, escolhi "performar", como diria a propria Minha Filha.
Daí, assim que ela passou a entender datas, tivemos as super produções do Calendário do Advento (farei um post a respeito. Tá no rascunho há anos, literalmente. E eu sei usar corretamente o "literalmente"), as médias produções de páscoa, as brincadeiras do dia a dia e chegou o dia em que ela perdeu o primeiro dente.
Quando a criança perde o dente, o que os pais fazem? Podem optar pelo "coloca o dente debaixo do travesseiro e a fada vai deixar um dinheiro pra você em troca do seu dentinho" ou simplesmente "Ok! Caiu o dente. Joga no lixo e se prepara que os próximos cairão em breve". Avaliei as opções e achei pouco. Confiei no meu potencial para fazer melhor.
Pois então, confiando no meu potencial, me enfiei em uma aventura que durou uns 2 anos.
No primeiro dente, avisei pra ela que a fada do dente viria deixar um dinheirinho pra ela. No meio da noite eu troquei o dentinho pelo dinheiro e, não satisfeita, escrevi um bilhete pra ela agradecendo pelo dentinho, pedindo para ela cuidar bem dos outros que estavam prestes a cair e "polvilhei" a cama com glitter. Debaixo do travesseiro deixei um tanto a mais de glitter e o tal bilhete, escrito com uma letra cheia de firulas. Letra de fada, na minha cabeça.
Quando ela acordou, aquela alegria, aquela festa! E daí pra frente foi só loucura e megalomania materna. Fui dobrando a aposta, sendo que eu estava apostando comigo mesma, contra mim mesma, nem sei. Eu era a banca, o apostador, os dados, a roleta. Assim, fui ganhando e perdendo ao mesmo, porque eu ganhava a satisfação de ver a magia acontecendo e perdia horas de sono pra esperar Alice dormir e eu poder fazer toda a maracutaia da fada.
No segundo ou terceiro dente, tivemos um problema: o dente foi engolido enquanto ela comida batatinha e deu-se o desespero.
"AfadaDOdenteNÃOvaiMEvisitarPORQUEeuENGOLIoMEUdeeeeeeete!!!!" *choro + choro + choro + choro*
Nada disso. A fada vai visitar minha filha, sim! A magia não vai ser engolida com batatinha, não! Eu não permito!
Entrei no Google Imagens, achei uma ilustração bonitinha de uma fada do dente. Mandei a imagem para a minha cunhada e pedi pra ela mudar a foto do whatsapp dela e me enviar um áudio fazendo voz de fada e falando que ficou sabendo que o dente foi engolido por acidente, mas que ela já tinha resolvido tudo. O dente era valioso demais para ser perdido, então ela pagou um pouco de queijo para os ratos mágicos do esgoto acharem o dente dela, já que ela já tinha ido ao banheiro e o dente foi embora pro esgoto, onde moram os ratinhos mágicos. Problema resolvido. Mais tarde a fada faria uma visita.
No meu celular, mudei o nome do contato da minha cunhada para Fada do Dente e apaguei o histórico da conversa, porque Alice nunca foi boba e ia questionar o que mais eu tinha falado com ela antes daquele áudio.
Alice ficou MUITO feliz com o áudio da Dona Fada do Dente. Melhor do que apenas uma cartinha.
E aí a história foi, foi, foi, foi... Até que Alice fez 7 anos e achei melhor acabar com essa história para evitar que ela contasse na escola sobre as visitas da Fada do Dente e, por isso, virasse motivo de chachota dos colegas que não acreditavam mais (ou talvez nunca tenham acreditado) na Fada do Dente.
Esperei um dente cair e deixei a última cartinha dizendo que agora ela estava um pouco grande, já não tinha muitos dentes para cair e a fada precisava coletar dentes novos, de crianças menores. Foi uma bela despedida e pensei que a história seria encerrada ali.
Mas não. Alice acordou, leu a carta e caiu no choro.
"AfadaDOdenteNÃOvaiMEvisitarMAAAAAIS!!!!" *choro + choro + choro + choro*
Foi nesse momento que tomei a decisão: matar a fada do dente.
Comecei dizendo que ela já estava grande, que os amigos também estavam grandes, que eu precisava que ela soubesse que a fada do dente era a mamãe. E que foi lindo incentivar e criar tudo aquilo, mas ela não podia seguir acreditando nisso porque eu temia que os colegas fizessem piada sobre isso, caso surgisse o assunto.
"AfadaDOdenteNÃOexiste?!?!?" *choro + choro + choro + choro*
Ela questionou o áudio, os bilhetes, o brilho mágico, o dinheiro... E eu tive que explicar: "Era eu, meu bem. A mamãe fazia tudo. O áudio foi a tia quem mandou porque eu não queria que você ficasse triste por causa do dente que engoliu".
O luto pela morte da Fada durou alguns dias, entre indignação e incredulidade.
No fim, passou e ela seguiu a vida dela perdendo mais alguns poucos dentes.
Se eu tivesse outra criança pequena, faria muita coisa diferente, mas a história da fada do dente, do começo ao fim, sinceramente? Eu faria tudo de novo.
Da criação ao assassinato da fada, não mudaria um grão de glitter nisso tudo.
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Trilha Sonora: ouvindo entrevistas no Youtube.

