segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Enquanto o Sol Nascia

Hoje veio aqui em casa aquele casal de amigos que mora na cidade onde moramos juntos por tão pouco tempo.
Eles passaram naquela padaria 24h e trouxeram o pão para o café da tarde.
Parece bobagem e, talvez você nem tivesse sentido o que senti, mas quando abri o saquinho dos pães voltei rapidamente e por poucos segundos naquelas manhãs em que íamos caminhar para aliviar as dores que eu sentia nas pernas no final da gravidez e, já que estávamos acordados, aproveitávamos o embalo e íamos até lá, tomávamos café da manhã, pedíamos os pães e os frios para o lanche da tarde e voltávamos para casa para que eu tentasse dormir um pouco.
Foram os últimos momentos que senti algum tipo de cumplicidade entre nós, enquanto éramos mais que um casal, quando conseguíamos ser amigos e ríamos juntos e conversávamos sobre a vida, sobre nosso futuro, sobre os nossos planos, sobre a gravidez, sobre nós. Não me lembro se todos os momentos de caminhadas foram assim, mas só consigo guardar comigo a imagem de um casal meio perdido com a vida a dois e gostando da aventura.
É estranho porque, quando penso nisso, meio que vejo a cena por cima, como se eu não fizesse parte daquilo e estivesse lá do alto olhando para nós lá embaixo, naquelas manhãs geladas que faziam naquela época do ano. Nos vejo caminhando sem pressa por causa das minhas pernas doendo, do peso da minha barriga e da nossa vontade de prolongar aqueles momentos tão nossos que, sabíamos, não durariam para sempre.
Tivemos o privilégio de passar meses em casa, sem compromissos, sem horários, sem preocupações externas. Só nós, só os nossos problemas e as nossas saídas de emergência, quando corríamos do outro lado da rua, fazíamos uns cálculos rápidos e conseguíamos mais um tempinho de tranquilidade financeira. Ironicamente foi esse privilégio um dos motivos do nosso fim.
Se eu soubesse que acabaria como acabou não sei dizer se eu mudaria algo, mas tenho certeza que teria te chamado para caminhar mais vezes, teria aproveitado mais aqueles últimos momentos de cumplicidade e leveza e, pode ter certeza, teria dito naqueles momentos entre um pãozinho e outro o quanto eu gostava da sua companhia.

***
Trilha Sonora: Walking After You - Foo Fighters. Uma das poucas músicas do Foo Fighters que eu gosto de verdade.

6 comentários:

Anônimo disse...

E eu se eu falar que estou passando por um processo semelhante? Saudade dói.

dentrodabolh.blogspot.com

Mila disse...

A saudade depois do fim é a pior saudade. Não tem mais aquele gostinho da saudade que cutuca a semana toda e será resolvida no sábado. É só a saudade, sem fim mesmo.

Ana Luíza disse...

Acho que as coisas pequenas são as que mais marcam. E deve ser difícil quando essas coisas remetem à algo que acabou, que a nos faz sentir saudade e no entanto não podemos fazer na a respeito. Mas a vida segue e uma hora a gente aprende não a esquecer, mas a superar.

Alessandra disse...

Que melancólico o seu texto. Embora seja de uma memória feliz. Parece paradoxal, mas também tenho esses momentos agridoces de saudades de coisas que já foram. De momentos felizes que eu vivi, e que desejava, que ainda fossem mais felizes. Momentos em que demonstrei amor, e queria poder ter demonstrado mais ainda. Vivido mais ainda... Belo texto!


http://dosdiascorridos.wordpress.com

Dentro da Bolha disse...

Adorei teu bog, juro. Apareci aqui sem querer e quando vi, estava lendo tudo, e comentando kkkk e foi em anonimo mesmo porque não estava no meu #louco
Vou ficar por aqui mais ;)
dentrodabolh.blogspot.com

Francielle M. disse...

Bonito o texto. Lembrei do final da minha gravidez.... de como eu andava na rua, sem pressa...